quinta-feira, maio 29, 2008
terça-feira, maio 27, 2008
Fez-se luz!

Caramba, a coisa anda mesmo parda! Começo por teimar esquecer que não se pode fumar no café da senhora bósnia, coitadita, que já não sabe que dentes me exibir para amareladamente me recordar que as espirais voluptuosas do meu cigarro não são bem vindas no seu balcão. É ali que trinco matinalmente umas parvoíces para enganar o estômago enquanto tento apagar do meu cérebro a imagem da cama macia e quentinha.
Depois também me ando a esquecer de puxar o travão de mão, o que não é grave porque o terreno é quase plano, só que o local é ventoso e o Verão foge de nós. Então outro dia, com a chuva tocada a vento, o Mustang já estava a querer ir embora sozinho. Eis que de seguida devo entrar a distribuir os bons-dias da praxe, mas qual quê, só tenho olhos para a maquineta que verte capuccinos e para o sofá mais longínquo do cubículo, onde me refugio à socapa dos interlúdios esganiçados da Velha Guarda. Não perco a hora porque tenho a vantagem de andar a toque de campainha, qual cãozinho do Pavlov, mas chamo Otília à Irene e Micas à Antónia e vou tentar abrir a porta da sala ao lado, com a dita a corrigir o nome por que atende e a vociferar que não é ali que devo torturar os meus jovens adultos, como estes agora se autodenominam (habituo-me ao acordo, de fininho!).
Pois é assim que estou por estes tempos no que concerne a arte de veicular saber a troco de uns famigerados trocos, congelados sabe-se lá até quando. Não se pense contudo que perdi o jeito, pois já são bons anos a saber como lidar comigo mesma para dominar o palco que diariamente me espera. É apenas uma fase peculiar e divertida, tipo à Mr. Bean, que ocorre porque um sol quente e luminoso se instalou no meu coração, coisa de que me desabituara há tempo. Em especial desde que a mãe partiu, o pai ficou macambúzio e parte do meu mundo desmoronou sem pré-aviso da noite para o dia por múltiplas e tristes razões.
Desejo que o sol não me queime, antes que me amorne lentamente, para que o sangue volte a circular fluido e me salte do peito a tábua que nele caiu. Tenho é que me lembrar de tudo o que me ando a esquecer no que toca às rotinas banais. E esquecer-me de tudo o que me andava a lembrar no que toca à minha vida. Parece-me bem.
(imagem de John Wilson)
sexta-feira, maio 23, 2008


Acorda Lusa gente! Chega de assaltos à carteira! Será que é desta?
sexta-feira, maio 09, 2008
Mundo cão!
A onda de violência xenófoba que assola a África do Sul há doze dias a esta parte dá que pensar. A livre circulação de bens e pessoas na Europa é um dado adquirido e chegam constantemente ao nosso país imigrantes de múltiplas proveniências. Há pelo menos dois milhões de pessoas estrangeiras a viver em Portugal com regalias e oportunidades similares às nossas, a disputar empregos, habitações e tudo o mais que é necessário para subsistir em condições minimamente aceitáveis. No entanto também nós atravessamos uma época de crise bem dura: os preços dos alimentos, bens de consumo genéricos e serviços não cessam de disparar, os juros da habitação não param de subir, a gasolina atinge preços escabrosos e os salários há anos que não aumentam proporcionalmente à crise. Cada vez temos menos regalias sociais, em particular na área da saúde, pagando impostos mais elevados do que aqueles que se praticam em nações evoluídas onde o nível de vida da população é superior. Somos assim um país cuja realidade tende a assemelhar-se à dos países terceiro mundistas, em que a classe média está em vias de extinção e a classe privilegiada floresce alegremente, dispersando-se pelos spas, pelas clínicas de estética e pelo turismo rural em carros topo de gama, ostentando roupas de marca e caras postiças. E os políticos incompetentes e laxistas, cuja taxa de absentismo na Assembleia da República é escabrosa segundo dados recentes da comunicação social, deixaram de nos fazer promessas e passaram a intimidar-nos, a calar os nossos protestos e a exigir-nos aquilo que não cumprem. Mantêm em contrapartida um nível de vida insultuoso, tendo em conta que ainda há, entre tantos exemplos chocantes, idosos a sobreviver com rendimentos de 150 euros mensais, e permitem-se as regalias e as bonificações que a nós nos interditam. Favorecem instituições bancárias e clubes de futebol, esquecem a Casa Pia depois de gastarem milhares aos contribuintes e querem que acreditemos que o único pedófilo português é o Bibi. Apregoam a falência da Segurança Social, cortam nas comparticipações dos medicamentos e dos exames médicos, demoram séculos a pagar as suas dívidas, mas continuam a cobrar-nos religiosamente a propina. Mandam-nos fazer rastreios periódicos, como o despiste do cancro do colo do útero, e acusam-nos de não vigiarmos adequadamente a nossa saúde. Porém são cada vez menos os incautos que realizam estes exames pela ADSE, por exemplo, o que significa que um exame de 2.05 euros pode custar ao contribuinte entre 45 a 120 euros, dependendo da gulodice de cada um. Enfim, se eu não tiver reforma quando a minha vez chegar, isto se não morrer antes ou não ficar demasiado podre para conseguir trabalhar, vou exigir os meus impostos com retroactivos no tribunal europeu!
Em suma: e se os portugueses também se lembrassem de escolher os imigrantes como bode expiatório? Se decidíssemos atacar os mais fracos por não termos força anímica nem coragem para atacar quem de direito? Seria bizarro, injusto e desumano, tal como o é na África do Sul. A classe desfavorecida não pilha as casas dos ricaços, não coloca bombas nos seus carrões, nos restaurantes de luxo ou nos hotéis por eles frequentados, nem assalta os bancos onde estes multiplicam os seus dividendos. Não, a classe desfavorecida vinga-se cobarde e desumanamente nos que se encontram em condições ainda mais precárias, nos indefesos, naqueles com quem devia solidarizar-se pois são seus iguais. Mas não. À semelhança dos grandes que lhes atazanam a existência e os reduzem à insignificância, atacam o elo mais fraco, quiçá para provarem o gosto da supremacia por escassos momentos, quiçá por impotência ou desespero.
Qual é então a diferença entre este nosso tempo de prodígios tecnológicos e avanços científicos e a época medieval? É óbvio que, acima de tudo e tal como sempre, vivemos num mundo cão!
quinta-feira, maio 08, 2008
Ficcionando em voz de mim

Quero açúcar nos meus ossos!
(foto Julien Roumagnac)
terça-feira, abril 22, 2008
Abril do nosso descontentamento

"Numa altura em que os diversos índices sociais e económicos continuam a remeter-nos para os últimos escalões da Europa Comunitária, não poderá haver lugar para o enfraquecimento dos serviços que cabe ao Estado assegurar", refere ainda o manifesto emitido pela Associação 25 de Abril.
Público on-line
Hoje há autocensura, pior do que a censura. Há medo instalado nas pessoas e falta de coragem para exercer a liberdade de expressão.
António Marinho Pinto, Correio da Manhã
Parece que a velha guarda do PS não se enquadra no grupo dos tementes Socretinos acima referido. A ver vamos se não lhes sai o tiro pela culatra, pois hoje em dia estamos preparados para assistir a toda e qualquer manifestação de prepotência por parte do Executivo. Até seria delirante se o PS entrasse numa crise interna, à semelhança do seu mais directo rival, o actual PSD, agora também conhecido como Partido Sem Dirigente. Podia ser que todos nos convencêssemos, e eu já o estou, de que este país não tem quem o governe, só quem o desgoverne e, desta feita, com pata de ferro em cima de quem trabalha. Toca a bulir e bico calado, senão... Se calhar um dia destes estamos a voltar ao Limoeiro! Pode ser que assim surjam poetas, iluminados, mártires, gentes cheias de empenho para melhorar a nossa jangada de pedra que tão à deriva e tão pobre de cérebros se encontra.
quarta-feira, abril 16, 2008
Peculiaridades lusas (versão automobilística)

- Por que razão há lombas nas subidas? Irra!
- O que leva os condutores a acelerarem em cima dos semáforos que disparam com a velocidade de modo a que tenhamos que parar gratuitamente enquanto eles se piram? A boa e velha versão do "Toma, toma!"?
- Qual é a lógica de encontramos tantas passadeiras a seguir a curvas? Matar mais e melhor?
- Por que razão os automobilistas aceleram quando queremos entrar num cruzamento para abrandarem logo de seguida? Fossangueiros!
- Por que motivo as senhoras condutoras raramente agradecem uma gentileza que lhes façamos? Serão de Hollywood?
- Por que cargas de água os peões nos obrigam a parar com ar indignado quando não há mais nenhum carro atrás de nós? Será que pensam "Aguenta ó tu que andas de cu tremido!"?
- Que diabo têm na cabeça os tipos que atravessam a passadeira a tourear os automóveis com ar de matadores? Ou aqueles que empurram meio metro o carrinho do bebé para nos assustarem? Ou os que desfilam como se estivessem na passadeira vermelha do Teatro Kodak em noite de Óscares? Brita e serradura no lugar de miolos!
- Será que os donos dos cães que os deixam urinar nas jantes dos nossos automóveis não têm veículo próprio? Ou será que os enfiam sempre na garagem? "Alivia-te aí bicho que é melhor do que lá na sala de estar!"
- Por que razão inventam tudo para nos extorquir o nosso parco dinheirito, nomeadamente os parquímetros e a limitação de uso dos mesmos? E com que justiça nos multam quando não temos moedas ou ultrapassámos o tempo limite por estar a enfrentar a broca do dentista? "Passa p'ra cá a guita e não bufes!"
- Por que motivo temos de pagar parque quando vamos à praia? Já não chega enfrentar o trânsito, pagar as casas de banho, o guarda-sol, as cadeiras, o jornal, o protector, as gaivotas e a bola de Berlim?
- Qual é a lógica de nos bloquearem a roda do automóvel e de nos obrigarem, por acréscimo, a ter telemóvel para efectuar uma chamada que pode tardar a ser atendida e é a nossa única hipótese de resolução do problema? E se for de noite num sítio perigoso? E se estivermos numa situação de emergência? E de nos fazerem depois esperar um mínimo de duas horas por não haver pessoal suficiente para dar vazão à tarefa de desbloquear rodinhas? E de nos forçarem ainda a ter cartão multibanco para pagar? Já agora, que tal pagar as multas via Internet? Os idosos agradecem!
- Para que servem as inspecções automóveis se andam por aí chassos a desmontar-se e a poluir o ambiente à força toda? Ah, claro, o desalinhamento de cinco milímetros dos faróis dianteiros é muito mais nefasto!
- Por que motivo os polícias não embirram com as motas de escape solto que nos massacram o cérebro e lixam os tímpanos? Terão acordos com otorrinos?
- Como é que há canais televisivos que entrevistam autores de carjacking com máscaras e voz distorcida? Serão primos deles?
Viva os transportes públicos, as bicicletas, os carrinhos de mão e os de rolamentos!
Viva o ambiente!
Viva o boicote à subida chula dos combustíveis!
(foto da Expo, Jardim da Água)
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Possessio maris.
I. O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Mensagem, Fernando Pessoa
(quadro de Salvador Dali, A Persistência da Memória)
segunda-feira, abril 14, 2008
25 de Abril sempre!

(A Bola, 06-06-74)
(Nikias Skapinakis)
(Vieira da Silva)
(autor desconhecido)
(Sérgio Guimarães)
(José Rodrigues)Natália Correia
SONETO DE ABRIL
Evoé! de pâmpano os soldados
rompem do tempo em que Evoé! a terra
salvé rainha descruzando os braços
com seu pé de papiro pisa a fera.
Na écloga dos rostos despontados
onde dos corvos se retira a treva,
de beijo em beijo as ruas são bailados
mudam-se as casas para a primavera.
Evoé! o povo abre o touril
e sai o Sol perfeitamente Abril
maravilha da Pátria ressurrecta.
Evoé! evoé! Tágides minhas
outras vez prateadas campainhas
sois na cabeça em fogo do poeta.
É tempo de pensar a nova revolução.
Acordai gentes lusas, que a pátria vai a pique e nós levados no arrastão!
sexta-feira, março 28, 2008
O circo mediático

Há coisas que irritam! Há séculos que todos sabemos que a indisciplina nas escolas é uma realidade preocupante e plurifacetada. Sabem-no não só os professores que são alvo da mesma, como também os funcionários, que tantas vezes são tratados com desrespeito e sobranceria. Sabem-no aqueles pais que se esmifram mais a defender as crias do que a atacar quem quer que seja, e que são a maioria, como também o sabem os alunos que são ameaçados com punhos ou armas brancas e assaltados pelos seus próprios colegas, por exemplo. Esta prática, que há alguns anos atrás seria impensável, passou a fazer parte do quotidiano de quase todas as escolas e, contra o que se possa pensar, é exercida por alunos de todas as proveniências e estratos sociais. Por isso é que me parece muito leviano e perigoso fazer generalizações!
No entanto para a comunicação social, cuja indisciplina também deveria ser alvo de discussão e de sanções, tudo isto parece ser uma grande novidade. Enoja-me o tom sensacionalista de "Mais um caso dramático", "Mais um testemunho pungente" ou "Mais uma história de arrepiar". Se não se confere ao assunto a seriedade que ele merece, que raio de exemplo se está a passar àqueles alunos que por natureza não respeitam nada nem ninguém? Também me envergonha que haja indivíduos da classe docente que venham à televisão contar historinhas foleiras e auto-vitimizantes de meninos que os insultam e lhes riscam o carro e se masturbam nas aulas. Uma coisa é estar impotente para exercer a autoridade e castigar de forma adequada os prevaricadores, outra coisa é não ter autoridade nem dignidade para se fazer respeitar. Há problemas sérios, tem que se rever o estatuto do aluno, não pode ser retirada a capacidade de intervenção disciplinar aos professores e às escolas. Porém não me parece que a melhor forma de resolver estes problemas seja a instauração deste circo mediático e decadente. Tudo isto é incongruente e triste! No fundo trata-se apenas de mais do mesmo: um filão a explorar pelos diferentes órgãos de comunicação social na mira do lucro fácil que advém do sensacionalismo de pacotilha que eles próprios promovem em torno de questões sérias e relevantes.
Quando é que os jornalistas vão dar voz aos que têm capacidades e bom-senso, para não chegar ao ponto de dizer vergonha na cara e sentido do ridículo? Por que razão, e particularmente em depoimentos televisivos, levamos sempre com os que não sabem falar, não têm dentes ou não têm cérebro? Dizem os entendidos que é isto que vende e que é isto que nós queremos. Irra! A mim nunca ninguém me perguntou nada! O que é certo é que começo a confundir dois vocábulos: Portugal e Circo Chen. Até a mediocridade dos programas de televisão portugueses conduz a esta legítima confusão: sopeiras, bichas histéricas, astrólogas, pseudo-vips, ex- Big Brothers, ex-misses, ex-pessoas dotadas de cérebro e não sei que mais população escolhida a dedo, a cortar nas casascas alheias com total despudor, a falar de trivialidades e mexericos e desgraças, a encher a cabeça do povo que consegue digerir tais bostas gigantescas com mais bostas gigantescas.
As escolas portuguesas são o reflexo da nação. Se fazem parte de um país que está podre, de onde vem tanto espanto?!
Quem puxará a carroça?

"(...) Ninguém duvida de que o PSD tenha um plano para salvar Portugal, mesmo que aparentemente não tenha um plano para se salvar. Toda a gente percebe que o PSD é mais difícil de governar do que o país. No PSD, que é um partido que se caracteriza por não ter ideologia nenhuma, a harmonia é rara e difícil. Veja-se o que acontece agora: o António Capucho não concorda com o Luís Filipe Menezes; o Luís Filipe Menezes não concorda com o Rui Rio; o Rui Rio não concorda com o Pacheco Pereira e o Pacheco Pereira não concorda com ninguém. O caso complica-se quando constatamos que o Luís Filipe Menezes, na ânsia de agradar a toda a gente, diz com frequência uma coisa e o seu exacto inverso, o que faz com que, muitas vezes, o presidente do PSD nem consigo mesmo concorde. E o trágico é que há quem diga que esta é a sua melhor qualidade. Faz sentido: Luís Filipe Menezes não é uma alternativa a José Sócrates. É várias. Menezes tem opiniões para todos os gostos. Há propostas capazes de agradar a todos os sectores da sociedade portuguesa, e ainda a alguns sectores de certas sociedades estrangeiras. As únicas pessoas a quem Menezes não consegue agradar, por mais que tente, são os militantes do PSD. (...)"
Excerto do artigo da rubrica Boca do Inferno de Ricardo Araújo Pereira, publicado na Visão de 13 de Março
quinta-feira, março 27, 2008
Théatron
Tempo híbrido e cinzentaço aqui a norte. Convida à introspecção e ao encasulamento. O mar está bravo e a humidade cobre tudo com uma película molhada e brilhante, que é depois lavada pela chuva tímida que a tempos escorre do céu. Deixo entretanto a minha homenagem a todos os actores que colocam o seu amor ao teatro acima das suas necessidades materiais e do seu desejo de protagonismo, esperando por subsídios estatais quiméricos e representando com todo o empenho em salas de espectáculo desertificadas. O que está morto decompõe-se, o que está vivo transforma-se! Bem-hajam!
quinta-feira, março 20, 2008
Torre de Babel ou caixa de Pandora?

A partir de 2008 deverá entrar em vigor a reforma ortográfica que torna a língua portuguesa um idioma único em todo o mundo. No entanto, as alterações afectam apenas 2% do português falado no Brasil. Em Portugal, contudo, as coisas já se processam de forma distinta.Vamos então tentar ter uma ideia das mudanças que ocorrerão no português de Portugal. O hífen não se usará mais. Assim, quando o segundo elemento começar com s ou com r, em vez do hífen essas letras serão duplicadas. Exemplos: palavras como anti-semita ou contra-regra passarão a redigir-se antissemita e contrarregra. Abre-se uma excepção para as palavras em que os primeiros elementos terminam com r, mantendo essas a sua grafia usual: hiper-requintado. Do mesmo modo, quando o primeiro elemento termina em vogal e o segundo começa com vogal diferente o hífen cai. Exemplos: auto-avaliação fica autoavaliação; extra-escolar passa a extraescolar.
Já formas verbais como vêem, dêem e lêem deixam de ter acento circunflexo, passando a redigir-se veem, deem e leem.
Os i e u tónicos quando precedidos de ditongo deixam de levar acento agudo. Assim viúva fica viuva.
O alfabeto passa a conter as letras k, w e y.
Os c e p mudos caem. Por exemplo: acção passa a ação, acto a ato e adopção a adoção.
O h mudo também cai. Deste modo húmido passa a úmido, por exemplo.
Lamento, mas não me agrada nada a ideia, em particular nos casos em que as palavras se confundem: Eu ato o sapato e é um ato difícil. Bizarro! Já a humidade sem h deixa-me seca e não me apetece passar à ação, de escrever, oviamente! (terá a ver com o ovo?) Averá a queda deste h? Que medo! E como os ditongos sem acento passam a ler-se como ditongos, isso significa que a palavra viúva passa a ler-se viu/va e o miúdo é um miu/do. Que orror!!! Vai ser uma autoflagelação mutilar tão ativamente as palavras!
E que grande miscelânea vai ser a escrita portuguesa em terras lusas se este acordo for aprovado! Não sei se haverá uniformização, pois com a tendência incrível que os portugueses têm para dar erros ortográficos agora é que vamos ter várias línguas portuguesas dentro de Portugal.
Não sei o que pensa de tudo isto o povo brasileiro, mas acredito que se sinta igualmente incomodado. Ainda assim as alterações são mais flagrantes por aqui. E mesmo lendo regularmente autores brasileiros e gostando muito de Jorge Amado, de Carlos Drummond de Andrade e de Vinicius de Moraes, a verdade é que todas as obras que li estavam traduzidas em português de Portugal, pois só assim consigo retirar genuíno prazer da leitura. Não se trata de ter nada contra (até gosto imenso da sonoridade que é mais doce e melodiosa do que a nossa) mas sim de ter tudo a favor da minha língua tal como ela é. É difícil tentar impor mudanças quando nos sentimos felizes com aquilo que se quer mudar. Mudem os políticos, mudem a falta de incentivos à cultura, mudem o clima de insegurança que se tem avolumado, mudem o que está mal. E mudem a m... da prepotência com que tentam governar este país pois não há cu que aguente!
(Brueghel, Torre de Babel)
Ontem foi colocado na Internet um vídeo sob o título "9º C em grande!". Foi posteriormente retirado, mas horas depois voltou a estar disponível, desta vez sob o título "Numa escola portuguesa - Vergonha". Infelizmente já foi novamente retirado há pouco mais de meia hora atrás. No entanto ainda pode ser visto no Público on line, onde igualmente se encontra uma colectânea dos melhores vídeos de 2007 por onde vale a pena passar os olhos. Trata-se então da filmagem feita por um aluno em sala de aula enquanto a sua colega se recusa a devolver o telemóvel que a professora de Francês lhe confiscara, gritando "Dá-me o telemóvel já!" e puxando pela docente. A dada altura esta não tombou no chão por pouco, ouvindo-se um "Olha que a velha vai cair!". Aluna e professora disputaram durante alguns minutos o dito telemóvel, até que houve alunos que tentaram pôr fim à contenda enquanto se ouviam as gargalhadas da turma em reboliço e alguém comentava "Isto é demais, ouve lá!".
Este que aqui se encontra já tem um ano e intitula-se "Ministra da Educação - A vergonha".
Ora talvez haja mais em comum entre estes dois vídeos do que uma mera semelhança de títulos. Afinal temos duas personagens do sexo feminino a revelarem a sua falta de educação e a merecerem a vergonha daqueles que os visualizam. No entanto, e tendo em conta que o exemplo vem de cima, o procedimento da Sra. Ministra para com os jovens presentes que a vaiavam tende a deixar-nos mais perplexos, pois presenteou-os com uma atitude inqualificavelmente absurda, patética e em tudo similar àquela que por eles estava a ser adoptada. E utilizou (pasme-se!) a tão característica prepotência a que já nos habituou: "Seguramente que gritarei mais alto!" Ilação a retirar: quando alguém se portar mal paguemos-lhe da mesma moeda e comportemo-nos ainda pior. Peculiar conceito de educação este da Sra. Ministra da Educação! Nem quero imaginar o que seria se os alunos presentes, ao invés de lhe darem uma vaia, lhe tivessem mostrado o traseiro!
Ainda assim o que mais me espanta é que nem uma só vez este famigerado vídeo, que há um ano se encontra a circular na Internet e que todos enviámos por mail aos amigos, tenha vindo a lume na comunicação social. Nem uma só vez a Sra. Ministra foi interpelada relativamente a este procedimento que, convenhamos, nada tem de usual ou de abonatório. É por estas e por outras que estou cada vez mais convicta de que os órgãos de comunicação social, e em espacial a televisão, se encontram fortemente manipulados. Talvez a questão da desinformação seja, de facto, mais pertinente do que nunca.
A parte mais caricata, ainda assim, é que esta mesma senhora, que não consegue permanecer indiferente aos protestos de alguns jovens com quem pontualmente se cruza, continue a retirar aos professores a autoridade dentro das salas de aula e permaneça surda às estatísticas que revelam a ocorrência de uma situação de violência diária contra os professores deste país. E estas estatísticas reportam-se apenas a situações de agressão mais incisiva que levam os docentes a apresentar queixa na polícia, pois casos como o da jovem que protagoniza esta tragicomédia ocorrem frequentemente e não chegam sequer ao conhecimento das autoridades. Resta até saber se a retirada do vídeo da Internet não é obra de quem nega sistematicamente a existência de violência nas escolas portuguesas.
O que acontecerá então à dita jovem de acordo com a legislação em vigor? Pois tendo em conta que certamente terá a seu favor o representante da Associação de Pais (um benemérito que não usufrui de incentivos estatais como os seus correlegionários da Confap!), será fervorosamente defendida com alegações de que se encontra perturbada, de que o seu contexto familiar não lhe faculta o equilíbrio desejável, de que deve ter acompanhamento psicológico e que em nada beneficiará com a exclusão do seu estabelecimento de ensino, e blá blá blá... A aluna terá, na pior das hipóteses a segunda pena máxima: dez dias de férias em casa, os quais não podem sequer ser contabilizados para a sua reprovação por faltas. E mesmo que pudessem, se a aluna não tiver feito quinze anos até trinta de Setembro do ano passado a sua assiduidade é um mero dado estatístico. Já os seus colegas, que se comportaram igualmente mal e a apoiaram, que deliraram com a cena e brindaram a professora com o epíteto de velha extasiados com a hipótese da sua queda, esses terão uma repreensão colectiva que ficará registada em cadastros que ninguém lerá. E abonam a favor dos envolvidos as imagens que provam que nenhum deles tem tatuagens nem piercings! Bons tempos, não tão longínquos, em que existia trabalho cívico nas escolas e eles iriam para a cozinha descascar batatas ou para as casas de banho limpar sanitas, com a "velha" a mimoseá-los com os seus piropos! Por acaso essa foi a sugestão de alguns dos jovens que se manifestaram no YouTube cujos comentários porém já não podem ser lidos. Mas não, que disparate! Estamos num país de brandos costumes e um dia destes nem os indivíduos que cumprem o serviço militar obrigatório terão que realizar tão humilhantes tarefas. Passarão a comer puré de batata instantâneo e terão aquelas casas de banho portáteis que se auto-higienizam, mas sem moeda!
Os adolescentes e os jovens estão a formar o seu carácter e precisam de ser aconselhados, orientados e educados. Tendo uma personalidade própria e características geracionais comuns, ele são também o reflexo da sociedade em que se encontram inseridos e o produto da formação que recebem e da informação que absorvem. Assim sendo, não é sobre eles que recai a maior quota parte de responsabilidade e de vergonha. Essa fica para os cidadãos que não possuem ética nem civismo, para os educadores que não têm autoridade nem sabem educar, para todos portugueses que compactuam bovinamente com um sistema em deterioração aos mais diversos níveis. Este é o estado da nação e a nação somos todos nós!
