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sexta-feira, outubro 30, 2009

Idiossincrasias



Vi estas imagens por aí num artigo sobre nomes infelizes para carros e, apesar de adorar automóveis, o meu cérebro divergiu logo para outras paragens. Pensei nas múltiplas mulheres que me têm atormentado há largo tempo a esta parte, uma das quais todos os que me conhecem ou que me lêem aqui facilmente imaginarão quem seja.
Ainda não fui porcinada desta feita, o que é um motivo bem válido para me sentir feliz, mas estou tão frustrada com a perspectiva de um fim-de-semana de trabalho árduo de correcção de testes (em pleno Halloween, que diabos!) e de preparação de aulas, que não resisti à vontade de descarregar a minha raiva de forma vernacular, ainda que contextualizada e subtil, como convém. Preferia, contudo, estar a partilhar algo mais criativo ou interessante ou inovador ou, pelo menos, minimamente inspirado, mas não há qualquer hipótese de fazê-lo por escassez temporal, portanto deixo só o desabafo que não consigo abafar.
Já agora, para quando um bólide The Vagina, La Vache, La Cabra ou afim? E ainda há quem duvide que o imaginário masculino está incontornavelmente povoado pelo universo feminino. Basta lembrar que até a garrafa da Coca-Cola foi inspirada nas curvas da Mae West.

sábado, janeiro 10, 2009

Cadavre exquis Pessoano


Pensar é estar doente dos olhos. (Contudo) Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. (Não sou um) Cadáver adiado que procria. Sou uma vida baloiçada na consciência de existir. Para ser grande, Sê inteiro, nada teu exagera ou exclui. Quantos Césares fui! Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?


segunda-feira, novembro 24, 2008

Brainstorming invernoso

É fantástico sentir saudades daquilo que nunca se experienciou. Vêm-me desejos súbitos de neve abundante, quando nunca vi tombar do céu mais do que tímidos flocos que a custo atapetaram o chão de branco. Mas já vi nevar em Paris, cidade que mais vezes visitei e da qual sinto ganas permanentes, sem também perceber de facto porquê.
De onde fluem estes ímpetos? De anteriores encarnações? Seria estrondoso e apaziguador acreditar em tal.
Caramba, que sede de viajar!

(foto Julien Roumagnac)

quinta-feira, junho 12, 2008


A solidão escorria dos olhos do cão. Era miudinha, quase imperceptível, como a primeira chuva de Outono que nos embala no aroma da terra. E feita de inúmeros retalhos cosidos pela mão do tempo, alguns coloridos e limpos, outros esfarrapados e negros.
Em tempos soubera sacudi-la como água que lhe ensopasse o pêlo. Ladrava para intimidá-la, mordia para que fugisse ou escavava o solo para a enterrar.
Agora deixava que esta o possuísse de mansinho e se transformasse numa árvore lilás de ramos finos, muito bela na sua tristeza.
O cão aprendera a entregar-se à sua sorte, ao ritmo improvável das coisas que lhe aconteciam por alguma razão, à melancolia de querer desfiar as estrelas e não ter por companhia senão a própria sombra.
Apesar de não estar sozinho, o cão estava tão só que a solidão transbordava e escorria dos seus olhos, formando pequenos mares de prata que lhe devolviam a sua imagem.

(foto Gavin Mullan)


terça-feira, maio 27, 2008

Fez-se luz!


Vamos dar como ponto assente que me encontro numa fase de perfeita tonteira! Continuo a ter neurónios, é certo, pois todos os dias às oito da manhã, hora imprópria para um bicho noctívago e deambulante estar fora da toca lavadito e apresentável, espremo o meu cérebro, afivelo o meu melhor sorriso e enfrento as feras. Estão ainda adormecidas e derramam-me olhares bovinos em frente às mesmas mesas das mesmas salas por onde passei há bem mais de uma década atrás. Esforço-me então, como é hábito, por acordá-las com uma cronicazita do RAP ou do MEC, uma notícia quente do jornal ou uma qualquer alusão ao Rock in Rio. Ainda assim há uma indolência invulgar que me adoça os movimentos e suaviza o tom de voz, o que as leva a fitar-me com olho matreiro e a incitar-me à dispersão, na tentativa vã de que a cavaqueira se prolongue para que as teorias cheguem mais tarde. Há uns dias e esta parte, admito, estou a acordar com elas e não a acordá-las a elas, variante que muito lhes apraz.
Caramba, a coisa anda mesmo parda! Começo por teimar esquecer que não se pode fumar no café da senhora bósnia, coitadita, que já não sabe que dentes me exibir para amareladamente me recordar que as espirais voluptuosas do meu cigarro não são bem vindas no seu balcão. É ali que trinco matinalmente umas parvoíces para enganar o estômago enquanto tento apagar do meu cérebro a imagem da cama macia e quentinha.
Depois também me ando a esquecer de puxar o travão de mão, o que não é grave porque o terreno é quase plano, só que o local é ventoso e o Verão foge de nós. Então outro dia, com a chuva tocada a vento, o Mustang já estava a querer ir embora sozinho. Eis que de seguida devo entrar a distribuir os bons-dias da praxe, mas qual quê, só tenho olhos para a maquineta que verte capuccinos e para o sofá mais longínquo do cubículo, onde me refugio à socapa dos interlúdios esganiçados da Velha Guarda. Não perco a hora porque tenho a vantagem de andar a toque de campainha, qual cãozinho do Pavlov, mas chamo Otília à Irene e Micas à Antónia e vou tentar abrir a porta da sala ao lado, com a dita a corrigir o nome por que atende e a vociferar que não é ali que devo torturar os meus jovens adultos, como estes agora se autodenominam (habituo-me ao acordo, de fininho!).
Pois é assim que estou por estes tempos no que concerne a arte de veicular saber a troco de uns famigerados trocos, congelados sabe-se lá até quando. Não se pense contudo que perdi o jeito, pois já são bons anos a saber como lidar comigo mesma para dominar o palco que diariamente me espera. É apenas uma fase peculiar e divertida, tipo à Mr. Bean, que ocorre porque um sol quente e luminoso se instalou no meu coração, coisa de que me desabituara há tempo. Em especial desde que a mãe partiu, o pai ficou macambúzio e parte do meu mundo desmoronou sem pré-aviso da noite para o dia por múltiplas e tristes razões.
Desejo que o sol não me queime, antes que me amorne lentamente, para que o sangue volte a circular fluido e me salte do peito a tábua que nele caiu. Tenho é que me lembrar de tudo o que me ando a esquecer no que toca às rotinas banais. E esquecer-me de tudo o que me andava a lembrar no que toca à minha vida. Parece-me bem.

(imagem de John Wilson)

terça-feira, agosto 21, 2007

Sintonia


Às vezes tentamos ter o discurso apropriado no momento exacto e o nosso esforço é inútil: não há reciprocidade, nem compreensão da mensagem transmitida. Outras vezes, espontaneamente, tudo flui de forma adequada: fazemos-nos entender e faz-se luz! As peças do puzzle encaixam-se temporariamente na perfeição, como uma partitura de música clássica em que diferentes instrumentos dialogam em sintonia. São estas ocasiões que nos fazem constatar que vale a pena interagir sem receios e acreditar numa harmonia improvável entre universos únicos e díspares.
Um dia a seguir ao outro: eis a chave da comunicação!

(foto Frank Boenigk)

sexta-feira, julho 20, 2007

Elogio do beijo


Mesmo num contexto em que os olhos mintam indiferença e o sorriso insinue espontaneidade, enquanto palavras simulam fluir ao ritmo de copos que se esvaziam ou de espirais de fumo que volteiam cinzentas e o corpo se distrai mecanicamente em sintonia com o som, eis que surgem as rasteiras dos beijos para manter a pureza desse instinto primitivo que se não verga à mais rija vontade.
O apelo carnudo de lábios macios e húmidos, a vertigem de múltiplas sensações que nos atropelam, o gozo incomensurável de uma troca tão intensa e particular, transformam os beijos num acto único de partilha e de puro prazer, em que simultaneamente nos conhecemos e nos desvendamos com genuinidade.
Não admira assim que sejam inúmeros os que se tornaram emblemáticos ao longo dos tempos e que fazem já parte integrante do nosso imaginário colectivo, imortalizados nas mais diversas manifestações de arte ou descritos das formas mais poéticas, cruas ou fogosas.
Mas realmente inesquecíveis são os que preenchem as nossas vivências íntimas e nos fazem sentir, com todas as fibras do nosso corpo, que isto de estar vivo é por vezes tão mágico que transborda de nós e nos ultrapassa!
Há beijos que sabem a biscoitos de chocolate...

(quadro de Klimt, O Beijo)

quarta-feira, novembro 15, 2006

Invernias



Água que escorre e desfoca. Água que activa o cheiro da terra. Água com música. Água da chuva.
Dias modorrentos e nostálgicos. Escuridão prematura. Frio húmido. Cinzentices... Resistir à tentação da preguiça! Espantar a melancolia...

(foto Martin Andreasen)

sexta-feira, novembro 10, 2006

Cidade XL


O apelo das sextas-feiras é incontornável! O temporário término de uma semana de trabalho, de imposições pagas, de actos de pura prostituição laboral em prol de causas que, maioritariamente, nada nos dizem. A cidade enfim oferece-se, numa imensa panóplia de estímulos aos quais só consegue resistir quem habituou o corpo a rotinas mórbidas de placidez e acomodação. Ou a quem falta ousadia e imaginação para voar mais alto!...
É imperativo mimar o corpo, apurar os sentidos e deixar que a magia da sexta-feira se aposse de nós. O formigueiro de gente gira e perfumada, sedenta de trocas, de copos e de música; as conversas espontâneas; os corpos que se fundem harmoniosamente com o som; a sede de viver e desfrutar em pleno: tudo isto é a noite na cidade! Negá-lo é inútil! Recusá-lo é puro desperdício!
Viver é estar vivo! Estar vivo é interagir em pleno! Por isso é sexta na cidade e nós estamos lá, porque a próxima ainda vem longe e a ampulheta não pára! Quantas mais nos será permitido gozar em pleno?! Na incógnita reside toda a magia desta entrega! Maior e melhor do que a anterior, se tudo correr a contento. Senão outra chegará, não tarda, para reconstruir o puzzle e apurar o desenlace.
Vivamos em pleno! Carpe diem!

(foto Pedro Gonçalves)