segunda-feira, abril 14, 2008

25 de Abril sempre!


(A Bola, 06-06-74)

(Nikias Skapinakis)

(Vieira da Silva)

(autor desconhecido)

(Sérgio Guimarães)

(José Rodrigues)

Natália Correia

SONETO DE ABRIL

Evoé! de pâmpano os soldados
rompem do tempo em que Evoé! a terra
salvé rainha descruzando os braços
com seu pé de papiro pisa a fera.

Na écloga dos rostos despontados
onde dos corvos se retira a treva,
de beijo em beijo as ruas são bailados
mudam-se as casas para a primavera.

Evoé! o povo abre o touril
e sai o Sol perfeitamente Abril
maravilha da Pátria ressurrecta.

Evoé! evoé! Tágides minhas
outras vez prateadas campainhas
sois na cabeça em fogo do poeta.

(Inédito)


É tempo de pensar a nova revolução.
Acordai gentes lusas, que a pátria vai a pique e nós levados no arrastão!

sexta-feira, março 28, 2008

O circo mediático


Há coisas que irritam! Há séculos que todos sabemos que a indisciplina nas escolas é uma realidade preocupante e plurifacetada. Sabem-no não só os professores que são alvo da mesma, como também os funcionários, que tantas vezes são tratados com desrespeito e sobranceria. Sabem-no aqueles pais que se esmifram mais a defender as crias do que a atacar quem quer que seja, e que são a maioria, como também o sabem os alunos que são ameaçados com punhos ou armas brancas e assaltados pelos seus próprios colegas, por exemplo. Esta prática, que há alguns anos atrás seria impensável, passou a fazer parte do quotidiano de quase todas as escolas e, contra o que se possa pensar, é exercida por alunos de todas as proveniências e estratos sociais. Por isso é que me parece muito leviano e perigoso fazer generalizações!
No entanto para a comunicação social, cuja indisciplina também deveria ser alvo de discussão e de sanções, tudo isto parece ser uma grande novidade. Enoja-me o tom sensacionalista de "Mais um caso dramático", "Mais um testemunho pungente" ou "Mais uma história de arrepiar". Se não se confere ao assunto a seriedade que ele merece, que raio de exemplo se está a passar àqueles alunos que por natureza não respeitam nada nem ninguém? Também me envergonha que haja indivíduos da classe docente que venham à televisão contar historinhas foleiras e auto-vitimizantes de meninos que os insultam e lhes riscam o carro e se masturbam nas aulas. Uma coisa é estar impotente para exercer a autoridade e castigar de forma adequada os prevaricadores, outra coisa é não ter autoridade nem dignidade para se fazer respeitar. Há problemas sérios, tem que se rever o estatuto do aluno, não pode ser retirada a capacidade de intervenção disciplinar aos professores e às escolas. Porém não me parece que a melhor forma de resolver estes problemas seja a instauração deste circo mediático e decadente. Tudo isto é incongruente e triste! No fundo trata-se apenas de mais do mesmo: um filão a explorar pelos diferentes órgãos de comunicação social na mira do lucro fácil que advém do sensacionalismo de pacotilha que eles próprios promovem em torno de questões sérias e relevantes.

Olhe-se para a imagem acima e veja-se como as agressões a professores se aliam às banhas de um Jardim a banhos ou aos desvarios do garanhão tuga do momento. Que asco! E ainda li há pouco no blogue de um professor, que curiosamente pretende processar figuras públicas por difamação da imagem da classe, que foi a correr comprar um exemplar desta publicação pasquinzenta, congratulando-se por ver expostos de forma tão abjecta os podres da sua classe...
Quando é que os jornalistas vão dar voz aos que têm capacidades e bom-senso, para não chegar ao ponto de dizer vergonha na cara e sentido do ridículo? Por que razão, e particularmente em depoimentos televisivos, levamos sempre com os que não sabem falar, não têm dentes ou não têm cérebro? Dizem os entendidos que é isto que vende e que é isto que nós queremos. Irra! A mim nunca ninguém me perguntou nada! O que é certo é que começo a confundir dois vocábulos: Portugal e Circo Chen. Até a mediocridade dos programas de televisão portugueses conduz a esta legítima confusão: sopeiras, bichas histéricas, astrólogas, pseudo-vips, ex- Big Brothers, ex-misses, ex-pessoas dotadas de cérebro e não sei que mais população escolhida a dedo, a cortar nas casascas alheias com total despudor, a falar de trivialidades e mexericos e desgraças, a encher a cabeça do povo que consegue digerir tais bostas gigantescas com mais bostas gigantescas.
As escolas portuguesas são o reflexo da nação. Se fazem parte de um país que está podre, de onde vem tanto espanto?!

Quem puxará a carroça?


"(...) Ninguém duvida de que o PSD tenha um plano para salvar Portugal, mesmo que aparentemente não tenha um plano para se salvar. Toda a gente percebe que o PSD é mais difícil de governar do que o país. No PSD, que é um partido que se caracteriza por não ter ideologia nenhuma, a harmonia é rara e difícil. Veja-se o que acontece agora: o António Capucho não concorda com o Luís Filipe Menezes; o Luís Filipe Menezes não concorda com o Rui Rio; o Rui Rio não concorda com o Pacheco Pereira e o Pacheco Pereira não concorda com ninguém. O caso complica-se quando constatamos que o Luís Filipe Menezes, na ânsia de agradar a toda a gente, diz com frequência uma coisa e o seu exacto inverso, o que faz com que, muitas vezes, o presidente do PSD nem consigo mesmo concorde. E o trágico é que há quem diga que esta é a sua melhor qualidade. Faz sentido: Luís Filipe Menezes não é uma alternativa a José Sócrates. É várias. Menezes tem opiniões para todos os gostos. Há propostas capazes de agradar a todos os sectores da sociedade portuguesa, e ainda a alguns sectores de certas sociedades estrangeiras. As únicas pessoas a quem Menezes não consegue agradar, por mais que tente, são os militantes do PSD. (...)"
Excerto do artigo da rubrica Boca do Inferno de Ricardo Araújo Pereira, publicado na Visão de 13 de Março

Quando pararemos de pensar em alternativas? Quando teremos bons governantes e uma oposição condigna? Quando viveremos num clima de estabilidade, confiança e prosperidade? Quem estará à altura de tomar as rédeas? Volta Sebastião! Estás perdoado!

Foto de Julien Roumagnac

quinta-feira, março 27, 2008

Théatron

Tempo híbrido e cinzentaço aqui a norte. Convida à introspecção e ao encasulamento. O mar está bravo e a humidade cobre tudo com uma película molhada e brilhante, que é depois lavada pela chuva tímida que a tempos escorre do céu.
Foi dia mundial do teatro (quando é que não há um dia mundial de qualquer coisa?) neste nosso país tão avesso às artes do palco. Lembrei-me das pessoas que ainda sobrevivem no Parque Mayer, agarradas às memórias gloriosas de um passado que não retornará, e só desejo que não sejam despojadas do pouco que lhes resta na recta final das suas vidas.
Deixo entretanto a minha homenagem a todos os actores que colocam o seu amor ao teatro acima das suas necessidades materiais e do seu desejo de protagonismo, esperando por subsídios estatais quiméricos e representando com todo o empenho em salas de espectáculo desertificadas. O que está morto decompõe-se, o que está vivo transforma-se! Bem-hajam!

quinta-feira, março 20, 2008

Torre de Babel ou caixa de Pandora?


A partir de 2008 deverá entrar em vigor a reforma ortográfica que torna a língua portuguesa um idioma único em todo o mundo. No entanto, as alterações afectam apenas 2% do português falado no Brasil. Em Portugal, contudo, as coisas já se processam de forma distinta.
Vamos então tentar ter uma ideia das mudanças que ocorrerão no português de Portugal. O hífen não se usará mais. Assim, quando o segundo elemento começar com s ou com r, em vez do hífen essas letras serão duplicadas. Exemplos: palavras como anti-semita ou contra-regra passarão a redigir-se antissemita e contrarregra. Abre-se uma excepção para as palavras em que os primeiros elementos terminam com r, mantendo essas a sua grafia usual: hiper-requintado. Do mesmo modo, quando o primeiro elemento termina em vogal e o segundo começa com vogal diferente o hífen cai. Exemplos: auto-avaliação fica autoavaliação; extra-escolar passa a extraescolar.
Já formas verbais como vêem, dêem e lêem deixam de ter acento circunflexo, passando a redigir-se veem, deem e leem.
Os i e u tónicos quando precedidos de ditongo deixam de levar acento agudo. Assim viúva fica viuva.
O alfabeto passa a conter as letras k, w e y.
Os c e p mudos caem. Por exemplo: acção passa a ação, acto a ato e adopção a adoção.
O h mudo também cai. Deste modo húmido passa a úmido, por exemplo.
Lamento, mas não me agrada nada a ideia, em particular nos casos em que as palavras se confundem: Eu ato o sapato e é um ato difícil. Bizarro! Já a humidade sem h deixa-me seca e não me apetece passar à ação, de escrever, oviamente! (terá a ver com o ovo?) Averá a queda deste h? Que medo! E como os ditongos sem acento passam a ler-se como ditongos, isso significa que a palavra viúva passa a ler-se viu/va e o miúdo é um miu/do. Que orror!!! Vai ser uma autoflagelação mutilar tão ativamente as palavras!
E que grande miscelânea vai ser a escrita portuguesa em terras lusas se este acordo for aprovado! Não sei se haverá uniformização, pois com a tendência incrível que os portugueses têm para dar erros ortográficos agora é que vamos ter várias línguas portuguesas dentro de Portugal.
Enfim, não me parece correcto que este acordo passe exclusivamente pela Assembleia, em especial em tempos de maioria parlamentar, e pelo Presidente da República. Creio que esta é matéria adequada à realização de um Referendo Nacional. Afinal a nossa língua por alguma razão se chama nossa (possessivo, indica posse, ou será que também vamos mudar a gramática?) e temos que a sentir como tal. Respeito as opiniões dissonantes, mas gostava que todos fôssemos ouvidos. Bom, fôssemos sem acento passa a ser uma forma do verbo fossar (escavar com o focinho). Será que este circunflexo também cai? Se assim for, eis uma palavra a evitar!
Não sei o que pensa de tudo isto o povo brasileiro, mas acredito que se sinta igualmente incomodado. Ainda assim as alterações são mais flagrantes por aqui. E mesmo lendo regularmente autores brasileiros e gostando muito de Jorge Amado, de Carlos Drummond de Andrade e de Vinicius de Moraes, a verdade é que todas as obras que li estavam traduzidas em português de Portugal, pois só assim consigo retirar genuíno prazer da leitura. Não se trata de ter nada contra (até gosto imenso da sonoridade que é mais doce e melodiosa do que a nossa) mas sim de ter tudo a favor da minha língua tal como ela é. É difícil tentar impor mudanças quando nos sentimos felizes com aquilo que se quer mudar. Mudem os políticos, mudem a falta de incentivos à cultura, mudem o clima de insegurança que se tem avolumado, mudem o que está mal. E mudem a m... da prepotência com que tentam governar este país pois não há cu que aguente!

(Brueghel, Torre de Babel)



Ontem foi colocado na Internet um vídeo sob o título "9º C em grande!". Foi posteriormente retirado, mas horas depois voltou a estar disponível, desta vez sob o título "Numa escola portuguesa - Vergonha". Infelizmente já foi novamente retirado há pouco mais de meia hora atrás. No entanto ainda pode ser visto no Público on line, onde igualmente se encontra uma colectânea dos melhores vídeos de 2007 por onde vale a pena passar os olhos. Trata-se então da filmagem feita por um aluno em sala de aula enquanto a sua colega se recusa a devolver o telemóvel que a professora de Francês lhe confiscara, gritando "Dá-me o telemóvel já!" e puxando pela docente. A dada altura esta não tombou no chão por pouco, ouvindo-se um "Olha que a velha vai cair!". Aluna e professora disputaram durante alguns minutos o dito telemóvel, até que houve alunos que tentaram pôr fim à contenda enquanto se ouviam as gargalhadas da turma em reboliço e alguém comentava "Isto é demais, ouve lá!".

Este que aqui se encontra já tem um ano e intitula-se "Ministra da Educação - A vergonha".
Ora talvez haja mais em comum entre estes dois vídeos do que uma mera semelhança de títulos. Afinal temos duas personagens do sexo feminino a revelarem a sua falta de educação e a merecerem a vergonha daqueles que os visualizam. No entanto, e tendo em conta que o exemplo vem de cima, o procedimento da Sra. Ministra para com os jovens presentes que a vaiavam tende a deixar-nos mais perplexos, pois presenteou-os com uma atitude inqualificavelmente absurda, patética e em tudo similar àquela que por eles estava a ser adoptada. E utilizou (pasme-se!) a tão característica prepotência a que já nos habituou: "Seguramente que gritarei mais alto!" Ilação a retirar: quando alguém se portar mal paguemos-lhe da mesma moeda e comportemo-nos ainda pior. Peculiar conceito de educação este da Sra. Ministra da Educação! Nem quero imaginar o que seria se os alunos presentes, ao invés de lhe darem uma vaia, lhe tivessem mostrado o traseiro!
Ainda assim o que mais me espanta é que nem uma só vez este famigerado vídeo, que há um ano se encontra a circular na Internet e que todos enviámos por mail aos amigos, tenha vindo a lume na comunicação social. Nem uma só vez a Sra. Ministra foi interpelada relativamente a este procedimento que, convenhamos, nada tem de usual ou de abonatório. É por estas e por outras que estou cada vez mais convicta de que os órgãos de comunicação social, e em espacial a televisão, se encontram fortemente manipulados. Talvez a questão da desinformação seja, de facto, mais pertinente do que nunca.
A parte mais caricata, ainda assim, é que esta mesma senhora, que não consegue permanecer indiferente aos protestos de alguns jovens com quem pontualmente se cruza, continue a retirar aos professores a autoridade dentro das salas de aula e permaneça surda às estatísticas que revelam a ocorrência de uma situação de violência diária contra os professores deste país. E estas estatísticas reportam-se apenas a situações de agressão mais incisiva que levam os docentes a apresentar queixa na polícia, pois casos como o da jovem que protagoniza esta tragicomédia ocorrem frequentemente e não chegam sequer ao conhecimento das autoridades. Resta até saber se a retirada do vídeo da Internet não é obra de quem nega sistematicamente a existência de violência nas escolas portuguesas.
O que acontecerá então à dita jovem de acordo com a legislação em vigor? Pois tendo em conta que certamente terá a seu favor o representante da Associação de Pais (um benemérito que não usufrui de incentivos estatais como os seus correlegionários da Confap!), será fervorosamente defendida com alegações de que se encontra perturbada, de que o seu contexto familiar não lhe faculta o equilíbrio desejável, de que deve ter acompanhamento psicológico e que em nada beneficiará com a exclusão do seu estabelecimento de ensino, e blá blá blá... A aluna terá, na pior das hipóteses a segunda pena máxima: dez dias de férias em casa, os quais não podem sequer ser contabilizados para a sua reprovação por faltas. E mesmo que pudessem, se a aluna não tiver feito quinze anos até trinta de Setembro do ano passado a sua assiduidade é um mero dado estatístico. Já os seus colegas, que se comportaram igualmente mal e a apoiaram, que deliraram com a cena e brindaram a professora com o epíteto de velha extasiados com a hipótese da sua queda, esses terão uma repreensão colectiva que ficará registada em cadastros que ninguém lerá. E abonam a favor dos envolvidos as imagens que provam que nenhum deles tem tatuagens nem piercings! Bons tempos, não tão longínquos, em que existia trabalho cívico nas escolas e eles iriam para a cozinha descascar batatas ou para as casas de banho limpar sanitas, com a "velha" a mimoseá-los com os seus piropos! Por acaso essa foi a sugestão de alguns dos jovens que se manifestaram no YouTube cujos comentários porém já não podem ser lidos. Mas não, que disparate! Estamos num país de brandos costumes e um dia destes nem os indivíduos que cumprem o serviço militar obrigatório terão que realizar tão humilhantes tarefas. Passarão a comer puré de batata instantâneo e terão aquelas casas de banho portáteis que se auto-higienizam, mas sem moeda!
Os adolescentes e os jovens estão a formar o seu carácter e precisam de ser aconselhados, orientados e educados. Tendo uma personalidade própria e características geracionais comuns, ele são também o reflexo da sociedade em que se encontram inseridos e o produto da formação que recebem e da informação que absorvem. Assim sendo, não é sobre eles que recai a maior quota parte de responsabilidade e de vergonha. Essa fica para os cidadãos que não possuem ética nem civismo, para os educadores que não têm autoridade nem sabem educar, para todos portugueses que compactuam bovinamente com um sistema em deterioração aos mais diversos níveis. Este é o estado da nação e a nação somos todos nós!

quarta-feira, março 19, 2008

Lembrete


Numa época em que a memória colectiva é tão curta, é bom relembrar que foram cem mil os que se manifestaram contra o actual estado do ensino em Portugal, secundados por centenas de transeuntes solidários. Foi um dia histórico! Esperemos que não seja irrepetível e que todos os que legitimamente querem expressar o seu descontentamento o façam civicamente e sem medo de retaliações.

segunda-feira, março 17, 2008

Mens sana in corpore sano


Estávamos convictos de que a maior preocupação e o alvo favorito do actual Governo eram os professores, que até já foram apelidados de hooligans por um senhor a quem convinha fazer uma operação plástica ao cérebro mais bem sucedida do que aquela com que desfigurou a cara, para quem não o ouviu nem se apecebeu da grotesca máscara, Emídio Rangel. À frente. Cem mil docentes saíram à rua na maior manifestação de sempre de uma classe profissional na Península Ibérica para exprimir de forma pacífica, e sobretudo cívica, o seu descontentamento. No entanto os olhos de cada um vêem o que cada um quer e daí retiram as ilações que bem entendem. Adiante! Na realidade, e voltando ao início, o certo é que o executivo PS encontrou novos focos de interesse em que concentrar as suas energias. Muitos coelhos saem da cartola dos governantes socialistas e eis senão quando, manobra de diversão inusitada, somos brindados com a proposta de um projecto lei que visa proibir a colocação de piercings na língua e nos genitais, bem como impedir a aplicação de piercings, tatuagens e de maquilhagem permanente a menores de 18 anos. Questão que se impõe: atravessamos uma época tão áurea que permita o luxo de ter ocupados os fracos cérebros e o escasso tempo dos líderes da nação com este assunto? Outras questões que igualmente se impõem: não há práticas legais mais nefastas para a saúde dos cidadãos em geral do que aquelas que esta lei visa impedir? Não é mais grave a mania de borrar as paredes com pseudo-graffitis que originam uma imensa poluição visual e desfeiam a paisagem urbana do que desenhar no corpo aquilo que bem se entender? Não há questões muito mais prementes no leque das preocupações comezinhas, como por exemplo o incremento da violência, a exigir a atenção da Assembleia? Isto é, no mínimo, Felliniano! E já agora, não resisto a comentá-lo, esta medida é mais um passo na esteira da desresponsabilização de muitos pais de adolescentes e jovens portugueses, que por este andar têm os seus filhos educados pelo Estado e pelos professores (para quando a escola nas férias caramba?!) e já não precisam de os mandar constantemente para o quarto jogar Playstation (cheia de heróis mauzões e tatuados) ou navegar na Internet (onde eles se inspiram para estas práticas tão fixes) ou ver o Miami Ink na televisão (eu vejo e gosto!).
No entanto o aspecto mais grave de toda esta polemicazita, a meu ver, é o atentado à liberdade individual do cidadão que semelhante medida acarreta. Quando um indivíduo perde os direitos sobre o seu próprio corpo é caso para ter medo! Que pretenderá impor-nos o Governo nos próximos tempos? A abolição do uso de lingerie ousada e a comercialização exclusiva de cuecas de gola alta e soutiens reforçados? A proibição de qualquer intercâmbio sexual que não ocorra na posição de missionário e que não tenha fins procriatórios? A obrigação de tomar banho duas vezes ao dia mas nunca de banheira cheia e com espuma para poupar água e evitar fantasias de índole perniciosa? A proibição de usar sapatos de tacão alto fora de casa para preservar a coluna e relegar a atenção que se concentra nas pernas femininas para um plano mais superior, a saber os olhos ou o cabelo, se bem que este último também nunca possa ser pintado de cores berrantes e improváveis, assim como as unhas e as pálpebras que devem aliás manter a sua coloração original para evitar os químicos que se entranham no organismo?! Se alguém precisar de ideias desta índole ou ainda mais à frente conte comigo! Tenho um manancial inesgotável e igualmente castrador de atentados aos direitos e liberdades individuais do ser humano.
O Salazar, sob a alçada de quem nunca vivi, era para mim um mito controverso e, sobretudo, o sinónimo da força de um povo que se conseguiu libertar, ainda que tardiamente, das garras da ditadura. Hoje, numa época em que todos os rótulos mentem ou teimam em colorir a verdade, temos políticos que não se assumem, que se escondem por trás de ideologias partidárias e de definições arrevesadas, gente que perdeu a hombridade, homens que usam falsas promessas para chegar ao poder, lobos travestidos de cordeiros, Salazares de meia pataca. É sabido que as rosas têm espinhos. Só não era suposto que eles nos picassem com tanto afinco e desfaçatez!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008


os barcos são a imagem que resta para fugir
mas só as palavras nos embriagam
são labareda que devora os barcos e a memória
onde nos movíamos
esquecemos o que nos ensinaram
e se por acaso abríssemos os olhos
um para o outro
encontraríamos outra imobilidade outro abismo
outro corpo hirto
latejando na imperceptível ferida nocturna

pernoito na precária vida do fogo
este rumor de mãos ao de leve pelo corpo
adormecido na superfície do espelho
assalta-me o desejo incerto de te acordar
e o medo de querer de novo tudo reinventar

Al Berto, Uma existência de papel


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.

Ricardo Reis

(foto Julien Roumagnac)

Just kiding!

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Preto no Branco


Se há programas que me enervam são exactamente aqueles em que pessoas de diferentes quadrantes profissionais decidem opinar taxativamente sobre questões que praticamente desconhecem, baseando-se apenas na sua realidade pessoal ou nos seus recalcamentos. Hoje porém assisti a uns quantos, em diferentes canais noticiosos, movida por natural curiosidade em relação às ilações que os portugueses retiraram das contestações dos professores frente à Ministra da Educação. E como muito me surpreendi com os despautérios da opinião pública, não resisto a analisar as críticas mais recorrentes dos cidadãos que se manifestaram na comunicação social.
O programa Prós e Contras de ontem pretendia clarificar vários falsos pressupostos que se incrustaram na dita opinião pública, ao longo dos anos, no que toca à classe docente e revelar as reais causas da actual indignação dos professores. Já nem ouso afirmar que este programa pretendia estabelecer o diálogo entre os professores e a sua Ministra, pois o tempo da utopia já lá vai e é gritante o autismo que agora impera em versão de cassete pirata curta e repetitiva! "O Inglês no Primeiro Ciclo, as aulas de substituição, os cursos técnico-profissionais e o aumento do sucesso" Como disse?! Não, por favor não repita! Contudo tenho que admitir que a Sra. Ministra tem sorte pois, tal como ela, muitos dos portugueses também não conseguiram ou não quiseram descodificar a mensagem dos docentes.
Vamos aos factos. A Sra. Ministra disse que as suas visitas surpresa desagradaram aos professores, quando na verdade o que lhes não agradou foi o facto das mesmas ocorrerem em horário lectivo, terem uma duração média de quinze minutos e se destinarem apenas à observação das instalações, não contemplando assim a auscultação das opiniões e reivindicações do corpo docente conforme ousou referir no seu discurso de inverdades. E esta é uma afirmação que pode ser corroborada por inúmeros docentes de diversos estabelecimentos de ensino da grande Lisboa. Portanto era bom que aqueles profissionais dos outros sectores, que também são avaliados e que por acaso detestam sê-lo, percebessem que não se temem as visitas da big boss. Os professores são indivíduos que trabalham a toque de campainha e que não podem apanhar trânsito de manhã ou levar tranquilamente os filhos à escola ou até mudar de sapatos por terem pisado caca de cão. Também não podem ter distúrbios intestinais, nem atender telefonemas ou fazer intervalos para cafezito, excepto durante os escassos minutos previstos para o efeito (vinte + quinze durante cinco horas). Mais! Os professores não podem ir de férias em Abril, ou em Maio ou quando lhes aprouver, nem fazer férias repartidas ao longo do ano. Ainda mais! Os professores não podem ousar fazer luto, nem ficar doentes, nem sequer morrer sem atribuir classificações de final de período aos seus alunos! Então por que razão os professores teriam que ter medo de uma visita surpresa da Senhora Ministra?! Talvez porque o seu médico teme a visita da sua Ministra quando faz um domicílio de duas horas, talvez porque o empregado do café teme a chegada do patrão enquanto se senta na palheta com os clientes, talvez porque aquele amigo que trabalha numa multinacional com regalias e vencimento impensáveis na função pública telefona para o escritório da praia e diz que a reunião com o cliente está complicada e durará toda a tarde! E como cada um avalia a realidade alheia por si, retiram-se ilações levianas e erróneas.
Entretanto os professores já referiram infindáveis vezes que não estão contra a avaliação e sim contra a forma irregular, arbitrária e ilegal (assim o entenderam os Tribunais Administrativos!) de que a mesma se reveste. É lamentável que muitas pessoas o não compreendam quando isto já foi explicado vezes sem conta de forma tão clara por todos os legítimos representantes deste sector. Será talvez caso para concluirmos que as dificuldades relativas à língua portuguesa são extensíveis à maioria da população lusa e não apenas àqueles que de momento frequentam a escola!
É necessário clarificar igualmente que não se trata hoje de um protesto da Fenprof e sim de um protesto massivo dos professores deste país, independentemente da sua orientação política ou do sua colocação na hierarquia profissional. Quanto ao argumento de que os professores estão sistematicamente contra todas as medidas do seu Ministério, o que também se ouviu à boca cheia e em tom jocoso, esta é uma afirmação deturpada e falaciosa. Os professores acataram o congelamento das carreiras para conter o despesismo e reabilitar as finanças do país. Os professores acataram uma requisição civil que foi dada como inconstitucional pelo Tribunal dos Açores. A avaliação promete continuar quando seis providências cautelares foram aceites pelos Tribunais Administrativos e, no fundo, os professores ainda se interrogam se devem ou não acatá-la. Não ocorre ao comum cidadão que estes poderiam tão simplesmente ficar em casa sem qualquer respeito ou preocupação pelos seus alunos e familiares enquanto esta política autista e inflexível do seu próprio Ministério se mantivesse? E uma coisa é certa: se os docentes deste país quisessem alinhar num braço de ferro desta índole, certamente que os transtornos causados à sociedade civil fariam recuar os responsáveis pelas políticas governamentais da Educação. Mas os professores não trabalham com máquinas, nem podem ser, por mais que se invista em aulas de substituição, devidamente substituídos por quem quer que seja na sua prática lectiva. Os docentes respeitam o futuro daqueles que ensinam e não pretendem lesá-los, nem mesmo que seja em prol das suas legítimas reivindicações. Há excepções? Claro que sim! E qual é a profissão em que tal não se verifica? E por que razão não se recordam os cidadãos que o artigo 102, aquele que permitia a um professor faltar uma vez por mês, foi concedido pelo Salazar à classe docente pela correcta noção do desgaste que esta profissão implica? É caso para dizer que já houve ditadores mais lúcidos e honestos do que estes seus contemporâneos travestidos de socialistas! E para que servem as estatísticas que corroboram ser esta uma das profissões com um maior índice de stress e uma maior incidência de esgotamentos nervosos e depressões? Fica mais barato ao país providenciar-lhes cuidados médicos e substitui-los por outros profissionais?
Relembre-se ainda que os professores têm há alguns anos, como já se referiu, as carreiras congeladas, os vencimentos congelados e que a actual progressão na carreira passa pelo número de vagas existentes na sua escola, o que significa que se o corpo docente for maioritariamente envelhecido a progressão estagna para os mais jovens. Como é que se pode assim falar de progressão por mérito e premiação dos profissionais mais qualificados quando o que há é uma progressão por quotas numa perspectiva economicista e injuriosa?! De facto, promover quem está no topo da carreira e já não pode ganhar um maior salário impedindo que os restantes progridam em termos monetários é somente uma forma astuciosa de implementar uma política de engordamento dos cofres do Estado. E para quê, se todos pagamos mais impostos, temos menos regalias sociais, vemos aumentar o custo de vida, subir os juros e fechar os postos de saúde, entre outras medidas terceiro-mundistas?! E o povo aplaude, o povo rejubila, o povo hurra bravos ao Sr. Engenheiro! E ainda há quem refira indignadamente a ausência de dedicação e de espírito de sacrifício da classe docente, como hoje ouvi, o que é absolutamente descontextualizado e ridículo pois os professores não são padres nem as suas despesas se pagam com idealismos!
Creio que mesmo assim o que é consensual é que a Sra. Ministra devia pensar seriamente na reestruturação dos Programas, a começar pelos do Primeiro Ciclo e pelos dos cursos CEF e técnico-profissionais (o escassos que existem), pois como foi demonstrado ontem é essencialmente aí que reside a causa do insucesso escolar. É no facto das escolas terem currículos exigentes e unidirecionados, de não haver alternativas consoante o perfil, as capacidades e as apetências dos alunos, tipo o que acontece na Alemanha, por exemplo, há umas quantas décadas. Mas ao invés disto, o que o Ministério vem implementando há longos anos, e é verdade, é uma política de facilitismo como forma de combater o dito insucesso dos alunos. Basta saber que estudantes do Ensino Básico com sete, oito ou mais negativas, com elevado índice de absentismo e total ausência de empenho e de trabalho, interpõem recurso à Drel e passam de ano ao abrigo da elevada taxa de repetência e da idade avançada. Isto se o Conselho Pedagógico não for antecipadamente coagido a fazê-lo, pois a coacção é um facto, quanto mais não seja pela quantidade absurda de documentos que é necessário preencher e de reuniões que têm que se realizar para fundamentar as causas do insucesso dos alunos. Para já não referir que uma das condições da tal suposta progressão na carreira por mérito é a ausência de abandono dos alunos e a obtenção de sucesso pelos mesmos. Será caso de cogitar a hipótese de dar aulas atrás dos pavilhões, no salão de jogos ou no átrio da igreja onde os absentistas fumam charros para evitar que faltem às aulas? Será adequado dar o teste para trabalho de casa, corrigi-lo depois e realizá-lo na aula seguinte, enviando até para casa dos que se baldam o teste já feito para estes poderem vir realizá-lo, se faz favor, no dia em que mais lhes convier? E aos bons alunos ensinarão os mestres que eles são uns totós visto que os seus colegas não reprovam por faltas, nem por mau comportamento, nem por más notas? Premeiem-se portanto os gandas malucos e mostre-se aos outros que eles são uns otários? Mas o mais grave, e que ninguém parece ponderar, é qual vai ser a integração destes indivíduos no mercado de trabalho ou quais serão a curto prazo as consequências deste tipo de procedimento para o progresso global do nosso país. Talvez quando a Sra. Ministra se lembrar de penalizar monetariamente os pais pelo insucesso dos seus filhos este diminua então de verdade!
Ouvi também falar na disparidade da qualidade entre o ensino público e o ensino privado. O que não se nomeia é a dignificação do exercício da actividade docente no sector privado, nem a disparidade das condições de trabalho ao nível das infraestruturas e da existência de funcionários, nem o apoio facultado pelas famílias aos estudantes, nem a disparidade dos conhecimentos, empenho e disciplina dos próprios alunos. Assim como ninguém nomeia a existência de múltiplas actividades facultadas pela escola pública que passam pela carolice e investimento não remunerado de inúmeros docentes, a saber clubes de escrita criativa e de leitura, grupos de teatro, núcleos de desporto, actividades dinamizadas pelas bibliotecas, jornais escolares, salas de estudo, gabinetes de inserção e de apoio ao aluno, visitas de estudo, entre tantas outras. E ninguém é pago para tal, nem isso se reflecte na progressão na carreira ou no acesso à titularidade! Assim como não se refere que é das escolas públicas que saem a maior parte dos licenciados deste país que encontram receptividade aos seus credíveis diplomas no mercado de trabalho, estudantes que se formam por mérito e não pelo pagamento de elevadas propinas ou pela atribuição de inúmeras classificações em diferentes cadeiras pelo mesmo docente(?!).
Que futuro para um país em que não se dignificam aqueles que presidem a uma área vital para o seu real desenvolvimento? Corações ao alto!

(quadro de E. Munch, O Grito)

terça-feira, outubro 23, 2007

Zás, tudo ao léu!


As telenovelas da vida real estão, mais do que nunca, em alta!
Ora principiou este bizarro fenómeno, se bem nos recordamos, pela clausura de um bando de toscos num barracão comunal minado de câmaras, onde inventavam tretas impensáveis para se entreter enquanto chiavam pela ordem de soltura. Mimoseavam as audiências com desvaires de polichinelo ou de estivador, abençoados entretanto pelas lágrimas da casamenteira apresentadora, e deliciavam o povo quando sucumbiam aos encantos alheios ou próprios debaixo das mantas.
A coisa foi avançando, que a televisão está mais do que nunca ao serviço da cultura e da intelectualização das massas, e vieram depois os pseudo-vips em versão rural ou em paródias circenses, as ditas belas e os pretensos iluminados a usufruir já de instalações mais condignas e outras quantas pérolas similares revistas e incrementadas. Hoje, e assim o exige a actual guerra de audiências, temos os noivos de Portugal e os aspirantes a vedetas do nacional cançonetismo em dose dupla. Três canais em plena sintonia! É lindo!
Como qualquer fenómeno sociológico, os reality shows merecem então que nos detenhamos a apreciá-los nas suas múltiplas facetas. Comecemos pelo público, esses vampiros que se alimentam da vida alheia e que querem figurar por escassos segundos que seja na caixinha mágica do vizinho, aquele sacana emproado que, esperam, se roerá de inveja. Quem poderá algum dia olvidar, por exemplo, os cromos anónimos com que o Big Brother nos presenteou à entrada do estúdio dos directos e cujas performances rivalizavam com as dos próprios concorrentes? Este foi o primeiro contributo de vulto para o espólio luso de improváveis personagens-tipo à portuguesa, ultrapassadas tão somente pelo nosso Emplastro, na versão popular, ou pelo Castelo Branco, na versão pretenso vip!
Não esqueçamos entretanto as famílias, aquelas pessoas solidárias que se despem por amor às crias, de forma desprendida e aceitando o pesado fardo da passageira notoriedade de forma estóica. Voltando ao Big Brother, pois foi de facto paradigmático, lembremos os progenitores cujos confrontos mútuos e respectivos impropérios nos permitiam melhor compreender a génese dos carácteres dos rebentos. Em dias de menos sorte, em que não havia rixa ou palavrão, era a devassa que atingia o rubro: a cor do primeiro cocó dos meninos, a primeira mecha de cabelinho ostentada no cordão de ouro ao pescoço, o primeiro castigo por lhes terem fanado a guita do porta-moedas ou a primeira vez que chegaram a roupa ao pêlo à namorada. Entrava de seguida a comunicação social na paródia, como é hábito e normal, e tudo era dissecado e desmultiplicado em revistas foleiras que acorriam sequiosas de mais caca para lançar no ventilador, entrevistando para o efeito todo o bicho careta que conhecera as ditas criaturas nesta ou em anteriores encarnações. Assim se deliciam as sopeiras ávidas dos podres alheios, quiçá para melhor lhes cheirarem os seus, enquanto todos os envolvidos rejubilam acreditando-se genuínas vedetas. E assim se produziram surreais fenómenos televisivos extra-concurso, como a abertura do noticiário nacional com o pontapé do Marco na Coisinha ou o charro fumado pelo Garnisé. Surge então mais uma almejada mudança, na esteira das medidas progressistas, desta feita na história das notícias televisivas: a sua credibilidade, depois destes desvaires sem precedentes, nunca mais foi a mesma!
Eis senão que hoje, tantos anos volvidos, a história se vai repetindo indefinidamente sem fim à vista. Vivemos de telenovelas ficcionais e reais. Algumas questões imperam: o que move as pessoas a uma exposição deste calibre? Que prazer experimentam em revelar ao mundo as suas remelas, os seus escarros matinais, o seu furúnculo na virilha ou as suas digestões ruidosas? Que estranho desejo as leva a contar a história da sua vida aos quadradinhos, as suas fraquezas, os seus podres? Que alegria lhes dá entabularem monólogos absurdos com câmaras de televisão e chorarem baba e ranho com saudades de familiares dos quais se separam voluntariamente durante uns dias? Que peculiar acesso de solidariedade as leva a tornarem-se amigas do peito de indivíduos que conhecem há meia dúzia de dias, quando sistematicamente ignoram familiares, colegas de trabalho ou vizinhos de anos? Finalmente, o que interessa tudo isto aos milhões de pessoas que assistem enlevada e fielmente a estes programas em detrimento daqueles que focam as questões políticas, sociais e económicas que presidem os seus destinos ou daqueles que, de algum modo, as enriquecem e aumentam a sua cultura geral? É esta a evolução das mentalidades no século XXI?
Parafraseando os gauleses, é caso para dizer "Estes romanos estão loucos!" . Depois de desnudar gradualmente o corpo, o que foi, a todos os níveis, uma excelente ideia, o ser humano entrega-se agora à nudez da alma à escala mundial, o que me parece muito mais vergonhoso e pornográfico. Basta ver o programa da Oprah ou do Dr. Phil e arrepelar os cabelos, corando pela miséria da exposição alheia. Será que agora toda a gente se convenceu que é de Hollywood? A humanidade precisa de uma terapia colectiva!
Haverá vida em Marte?!

(foto Alessandro Pautasso)

quarta-feira, outubro 17, 2007

Triste fado

Este é o grito que me sai para não sufocar! O grito que se impõe quando sei que o fisco perdoa dívidas de milhões de euros a indivíduos privilegiadíssimos, enquanto esmifra, por exemplo, cidadãos idosos que subsistem com quantias pornográficas. O grito que irrompe quando leio que a Caixa Geral de Aposentações admitiu hoje que nunca considerou incapaz para o exercício das funções a professora a quem foi retirada parte da língua na sequência de um cancro, deixando a docente com grande dificuldade em falar. O grito que se solta quando constato que o orçamento geral de Estado para 2008 é um ainda maior e mais descarado assalto ao bolso dos contribuintes. O grito que extravasa quando fontes fidedignas me relatam os desvios monumentais que ocorreram aquando da Expo 98 e percebo que há coisas que nunca mudam. O grito que constantemente aflora aos meus lábios, vindo lá do mais fundo das entranhas, porque sofro com as múltiplas impotências inerentes à minha condição humana, porque sou mortal, bem como todos aqueles que amo, mas, e hoje mais do que nunca e acima de tudo, porque sou portuguesa!
"Às armas, sobre a terra e sobre o mar. Pela pátria lutar!" É notório o quanto a maioria dos portugueses desconhece o hino nacional! A
té quando vamos aguentar calados e passivos? Para quando o grito colectivo?

(foto Alessandro Pautasso)


sábado, outubro 13, 2007

Farpas


Há coisas que nunca mudam! Até quando?...

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis, no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, Pátria, 1896

(foto Julien Roumagnac)

Os gloriosos malucos das máquinas voadoras



O Porto tem um encanto muito particular e este espectáculo do Red Bull veio lembrá-lo em directo a todo o país, especialmente aos que gostam de tesourar na Invicta.
Já lá vão uns tempos, mas não resisti a recordar este evento cheio de adrenalina que tanto lucrou com a paisagem envolvente e o azul do Douro.
Fazem falta outras iniciativas similares, pois Portugal é pródigo em belas cidades e todos ansiamos por algo mais do que festivais ao longo do Verão. Dêem-nos asas que nós voamos!

(fotos Kika)