terça-feira, abril 06, 2010

As causas da crise


Entre 2006 e 2008, o Ministério da Educação pagou ilegalmente 5,12 milhões de euros a 164 professores requisitados para o desempenho de funções em entidades de direito privado e institutos públicos. Saliente-se que este é o mesmo ministério que faz apelos constantes à contenção orçamental e que exigiu aos seus funcionários que abdicassem, de cara alegre, do justo aumento irrisório anual a que têm direito. 
Resta saber como é que a actual ministra vai descalçar esta bota, herança envenenada da sua nada saudosa antecessora. Provavelmente fica tudo em águas de bacalhau!
Entretanto, é ainda mais grave que o ME, estando alertado pela Inspecção Geral de Finanças, desde 2006, para a ilegalidade em que estava a incorrer, tivesse persistido nos pagamentos até 2008, inclusive. O descaramento! Tentemos nós, comuns mortais que pagam os seus impostos, cometer uma qualquer infracçãozita e sai-nos bem cara a proeza. Basta atrasar um dia a declaração dos impostos e já estamos a levar talhada da grossa! Mas quando se trata de milhões que o Estado saca a si próprio para favorecer amigalhaços, a coisa passa de fininho. Como passam os Freeport, os diplomas duvidosos, os submarinos e o mais que se queira.
Quando nos destroem a carreira, após um congelamento de mais de dois anos que só contaram para efeitos de Segurança Social (se essa ainda existir daqui até lá!), a verdade é que não temos predisposição para engolir notícias desta índole, que nos revolvem as entranhas e nos desmotivam profundamente. Se tivermos em conta o facilitismo que impera no ensino, o insucesso que se tenta contornar com o inflacionamento das classificações e a indisciplina crescente, com agressões cada vez mais recorrentes, é caso mesmo para pensar em mudar rapidamente de vida.
Há crise em Portugal? Claro que sim, graças a centenas de ocorrências similares à atrás reportada. E depois mandam-nos apertar o cinto e ameaçam-nos com as consequências  da crise... Haja lata!   

segunda-feira, abril 05, 2010

Prazeres contemporâneos


As Maldivas são um dos paraísos do Índico, um conjunto de mais de mil ilhas das quais apenas duzentas são habitadas. A cadeia internacional Hilton escolheu este local para construir um restaurante muito exclusivo, o Ithaa (pérola), inaugurado em 15 de Abril de 2005. 
Este restaurante tem a particularidade de se situar debaixo de água, a cinco metros de profundidade, sendo o acesso feito através de uma plataforma à superfície, na lagoa, onde os hóspedes podem tomar uma bebida antes de entrarem na sala de refeições propriamente dita. Ao descerem por uma escada em caracol deparam-se então com uma sala com cinco metros de largura por nove de comprimento, com capacidade para apenas catorze clientes, coberta por uma cúpula semicircular em vidro acrílico transparente. Graças a esta característica, podem desfrutar de uma refeição sofisticada rodeados pela bela e exótica paisagem da lagoa circundante e do recife de coral, onde se movem coloridos peixes de várias espécies, raias e até tubarões. O custo das refeições varia entre 120 (94.5 euros) e 250 dólares (196.8 euros).
Presumo que o cardápio contemple pratos de peixe, mas parece-me injusto comer os irmãozinhos daqueles que tornam este espaço tão aprazível e único. Eu, pelo menos, se lá fosse comia chicha. 




quinta-feira, março 18, 2010

Alessandro Bavari

Tríptico - "Desconstrução de um Herói e construção de um Homem" (2001)
















"Sodoma e Gomorra"


Achei estes trabalhos muito curiosos, pois lembram-me o pintor flamengo Hieronymus Bosch, o artista suíço H. R. Giger e o pintor catalão Salvador Dali fundidos numa forma de representação visual única e deliciosamente surrealista (constate-se que adoro o surrealismo). A profusão de detalhes  curiosíssimos e a interligação de elementos alegóricos provenientes de várias mitologias indo-europeias culmina, a meu ver, num trabalho original e impactante. Se clicarem nas imagens estas ampliam-se, o que é imprescindível. 
Alessandro Bavari nasceu em Latina, uma cidade costeira do sul de Roma, em Abril de 1963. Cresceu numa família italo-francesa e frequentou uma escola de artes, onde começou a fazer fotomontagens com apenas quinze anos. Mais tarde, estudou cenografia, fotografia, história da arte e outras matérias na Academia de Belas Artes, em Roma.
Durante estes anos, adquiriu o hábito de fotografar constantemente: seres humanos e animais, objectos, elementos arquitectónicos, paisagens, materiais, fósseis... A partir de 1993 passou a utilizar a manipulação digital nos seus trabalhos, desenvolvendo uma linguagem artística muito própria e utilizando produtos orgânicos e industriais antes de incorporar o processo fotográfico, seguido-se então a digitalização em computador. Isto conduziu a "uma espécie de contaminação entre as artes que anulou as fronteiras que as distinguem".
Alessandro Bavari vive e trabalha em Itália. O seu currículo é notável e, para quem gostar do que vê, é recomendável visitar o seu site.
Quanto a "Sodoma e Gomorra", um trabalho de 2000, diz Bavari: "É um projecto sempre em aberto, ao qual continuarei a acrescentar outros trabalhos. É um projecto em constante expansão, como seriam Sodoma e Gomorra se tivessem sobrevivido à Ira Divina: uma expansão irracional, caótica, exuberante e espontânea, tal como a de todas as cidades modernas."
Sodoma e Gomorra (do hebraico סְדוֹם Sodom e עֲמוֹרָה Amorah ) são, de acordo com a Bíblia judaico-cristã, duas cidades cheias de pecado e depravação que teriam sido destruídas por Deus com fogo e enxofre descido do céu. Segundo o relato bíblico, as cidades e os seus habitantes, os cananeus, foram eliminados por Deus devido à prática de actos imorais.
A expressão "Sodoma e Gomorra" aplica-se, por extensão, às cinco cidades-estado do Vale de Sidim, no Mar Salgado ou Mar Morto. Eram elas: Sodoma, Gomorra, Admá, Zebolim e Bela (também chamada de Zoar).
O Vale de Sidim (Vale dos Campos) era descrito como um lugar paradisíaco. Ocupava uma área aproximadamente circular no vale inferior do Mar Salgado, actualmente submerso pelas suas águas. A região é chamada em hebraico de Kikkár, que significa "bacia". A pequena península na margem oriental do Mar Salgado é chamada em árabe de El-Lisan, que significa "a língua". Desde a península de El-Lisan ao extremo sul, estender-se-ia o Vale de Sidim.
O Vale do Rio Jordão situa-se numa importante falha tectónica que desce abaixo do nível médio do mar. A referida destruição poderia muito bem ter sido originada por um forte sismo que tivesse desencadeado a actividade vulcânica.
Não havendo certezas quanto à causa da destruição destas cidades, sabe-se pelo menos que a criatividade de Bavari foi despoletada por este mito bíblico e com bons resultados.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Quando a água não lava






Desafiar a natureza nunca trouxe bons resultados. É fundamental que tenhamos a noção da nossa impotência perante a fúria dos elementos e que percebamos que, quaisquer que sejam os imperativos que nos levam a interferir com o curso dos rios ou a morfologia das escarpas, a mão do bicho homem tem que ser exímia e consciente. Porém, este tipo de cogitações não devolvem a vida aos que a perderam na ilha da Madeira no confronto injusto e desigual com as águas, nem aos que viram as suas casas reduzidas a escombros e os seus pertences transformados em destroços naufragados. Estou solidária com a sua dor e predisposta a dar o meu ridículo contributo para menorizar o seu sofrimento.
Entretanto admito que esta vaga de catástrofes que têm ocorrido um pouco por todo o globo (Brasil, Haiti, Itália, entre outros) me tiraram um pouco a serenidade com que sempre ouvi a chuva fustigar os telhados ou o vento assobiar pelas frestas das portadas. A minha casa parecia-me uma fortaleza inviolável, onde o único mal que me poderia suceder só viria de um malfadado telefonema ou de uma qualquer maleita que me levasse desta para melhor, pois ninguém sabe quando é que a senhora feia da foice se lembra de fazer das suas. Como disse o Ricardo Araújo Pereira em entrevista publicada na última NS, somos o único animal que ri e que sabe que vai morrer. É irónico, sem dúvida, mas o riso também é uma das formas de espantar o medo. Bom, mas voltando à vaca fria, a verdade é que desde a uma e trinta e sete do dia dezassete de Dezembro do ano passado, altura em que pela primeira vez na minha vida a terra tremeu debaixo do meu traseiro, nunca mais senti total conforto entre as quatro paredes da minha toca. Estava sentada no chão e encostada ao sofá com o portátil ao colo, a minha posição predilecta, quando ouvi estalarem todos os móveis da sala em simultâneo. Constatei o sucedido sem reflectir e prossegui o trabalho no qual estava embrenhada, sendo que, de seguida, surgiu um ruído profundo vindo do exterior. Pensei, instintivamente, tratar-se do camião de recolha do lixo e, eis senão quando, o portátil começou a dançar-me sobre as pernas e toda eu oscilava para a direita e para a esquerda, tendo porém consciência de estar imóvel. Por uma fracção de segundos achei que estava a alucinar e que o vinho do jantar era de primeira, pois ainda batia ao retardador. Contudo, rapidamente percebi que estava a ocorrer algo que me transcendia e fez-se luz. Então o meu primeiro impulso foi olhar para o relógio, o que é incrível. Como em todas as circunstâncias inusitadas, nem nós mesmos podemos adivinhar as reacções que teremos. Não gritei, não dei um salto, não saí disparada. Limitei-me a documentar o instante e a senti-lo com todas as fibras do meu ser, entre estarrecida e fascinada. Claro que, se a duração e intensidade do abalo fossem superiores, a coisa não se teria certamente processado desta forma, mas felizmente para mim, e para todos nós, aqueles segundos não deram para mais. Quando o chão deixou de ter vida própria já era eu que tremia, de medo, sem dúvida, mas sobretudo devido às sensações que se tinham apoderado de mim. Percebi a formiga que sou, mesmo quando a toca parece segura, e a força que me transcende e me pode esmagar sem pré-aviso nem contemplações. Percebi também a falta que ia sentir das minhas coisitas e refiz a caixinha de emergência, que tive durante muitos anos, com aqueles que considero serem os meus bens mais preciosos. E não tornei a dormir totalmente descansada, o que é uma grande treta, nem consegui voltar a encarar com a mesma racionalidade as desgraças alheias desta índole.
Posto isto, só me ocorre perguntar o que entende o melhor jogador do mundo, o rapazola madeirense que ganha quantias absolutamente pornográficas, por estar disposto "na medida do possível, a ajudar os organismos e entidades oficiais" nos trabalhos destinados à superação "dos efeitos desta grande devastação". Espero que isto, em bom Português, queira dizer guita, pilim, mufunfa, carcanhol ou qualquer outro sinónimo a que venham acoplados muitos números e um cifrão, pois não me parece que ele se esteja a referir a trabalho braçal de remoção dos destroços ou a ajuda na distribuição de bens essenciais às vítimas. Chuta a bola e ajuda os teus conterrâneos miúdo, já que te podes dar ao luxo de destruir cavalinhos empinados em brinquedos vermelhos, pois, sinceramente, dedicar-lhes golos não lhes enche a barriga.

sábado, fevereiro 20, 2010

Goodbye McKing
















Alexander Mcqueen foi um dos indivíduos mais criativos e talentosos das últimas décadas. Contrariamente às criações de grande parte dos estilistas, a maioria das suas roupas eram vestíveis e despertavam o desejo imediato de adquiri-las. Foram inúmeras as estrelas do mundo da música e do cinema que se renderam à sua mestria, bem como Michele Obama e outras mulheres de perfil mais conservador.
Ao que consta, Mcqueen não resistiu ao desgosto provocado pelo falecimento da sua mãe, sendo contudo irrelevante o motivo que o levou a pôr término a uma existência que enriqueceu o nosso imaginário e nos trouxe trabalhos excêntricos, inusitados e, maioritariamente, muito belos, exibidos em desfiles memoráveis. É em circunstâncias destas que clichés como "o mundo ficou mais pobre" e "a moda sofreu uma irremediável perda" fazem todo o sentido.

Maus anúncios dos bons velhos tempos
















É muito curioso observar a evolução das mentalidades. Imaginem as polémicas que hoje se gerariam em torno destes anúncios. E a risota que seria vê-los publicados!