sábado, setembro 05, 2009

Mudam as moscas (ou nem por isso)


Há seres verdadeiramente incríveis!
Num país em que o caso da Casa Pia se arrasta ad aeternum a expensas do erário público visando cair no almejado esquecimento, em que as Fátimas Felgueiras voltam alegremente plastificadas do Brasil graças aos sacos azuis e passeiam agora para a comunicação social ao lado do primeiro-ministro aguardando a vitória nas próximas autárquicas, em que os Isaltinos Morais são condenados mas esperam voltar a assumir o comando, comendo queijo Limiano, para desviar mais uns milhares para as contas dos sobrinhos, em que os incendiários vão devastando impunemente os recursos florestais que se impõe preservar, em que cidadãos que vão tratar dos olhos saem cegos do hospital, em que os cães continuam a cagar nos passeios ou onde melhor lhes aprouver, em que os políticos das diferentes facções fazem pseudo-debates com luvas de pelica e esquecem os knockout da praxe em prol de possíveis alianças que lhes venham a ser favoráveis, em que há Braga Parques e Motas e Engil a mexer cordelinhos invisíveis que lhes rendem milhões de euros chorados por todos nós, em que a Selecção das Quinas parece ter quinado de vez, apesar do seu professor doutor treinador
insistir até à exaustão no prolífico verbo ganhar (Cruzes!!! E o senhor nem sequer é do tempo das novas oportunidades para ter o desconto inerente), afigura-se quase impossível que algo mais nos consiga surpreender. E atenção que pluralizo, demarcando-me ainda assim veementemente do incontornável e secular marasmo abúlico dos portugueses amantes de telenovelas, de Tardes da Júlia, de Preços Certos, de mulheres semi-nuas que anunciam prémios telefónicos pela noite dentro e de outros tantos laxantes afins que propiciam a diarreia mental. Por mim até substituiria a dita senhora que os espanhóis mandaram pastar por ser demasiado desbocada (o que, convenhamos, é absolutamente consentâneo com a dimensão da dita boca) e distribuiria traulitada de criar bicho para a direita e para a esquerda - que ainda consigo diferenciar desde que o tema não seja a política - como nos bons velhos tempos em que a comunicação social não se tinha prostituído tão descaradamente.
Mas voltando à vaca fria, há seres verdadeiramente espantosos, que conseguem até convencer os mais incautos que canibais que comam de faca e garfo são indivíduos civilizados. São seres que enfiam a fénix renascida num chinelo e que possuem um fôlego superior ao de Carl Lewis. São os Santana Lopes deste mundo, que dão entrevistas em traje de escapar para a Kapital logo que a seca termine, utilizando neologismos tão brilhantes como " Acho uma idioteira..." e ostentando como ex libris de campanha continuar o trabalho no Parque Mayer (a Kapital está uma sequeira senhores!). Irra! Que lateira! Já sabemos que o homem vive às custas do Estado, que não tem onde cair morto e que mandou construir um túnel cujo real motivo de espanto é ter de ser atravessado a 50 km por hora. Também sabemos que o Mourinho chegou para ele e que o seu célebre ataque de ciumeira lhe deu mais mediatismo do que os seus desempenhos políticos. Sabemos ainda que a sua campanha se intitula "Lisboa Com Sentido", presumo que um sentido único, o do seu proveito próprio. Mas um tipo que foi afastado por um Presidente da República, assaz conhecido pela sua inércia, por não ter nem perfil, nem competência, nem qualquer base de sustentação credível para desempenhar o cargo de primeiro-ministro, voltar sempre a querer tão airosamente desencavar uma fonte de rendimento à custa do contribuinte é atroz! Quando não houver mais nenhum cargo a que concorrer, a criatura inventa-o!
Em suma, há quantos anos não aparece um político digno desse nome? O que temos tido nas últimas décadas? O que nos diferencia de 1916, ano em que Almada Negreiros afirmou que
"UMA GERAÇÃO QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO! (...)

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS AO LEME É UMA CANÔA EM SECO!

O DANTAS É UM CIGANO!

O DANTAS É MEIO CIGANO!"

Só não sei se estes Dantas nus são horrorosos ou se cheiram mal da boca, mas também não quero verificar. Alastrando à contemporaneidade, acrescentaria só que "Dar dinheiro ao Dantas é tão mau como pedi-lo à Cofidis!", visto que os juros e as penalizações são, em ambos os casos, exorbitantes. E é isso que quase todos fazemos, alimentamos os parasitários Dantas que se arvoram em condutores dos destinos da nação. Por isso é que a queda continua a pique! Só queria mesmo é que mandássemos pastar os Dantas de uma vez por todas, pois enquanto indivíduos como eles existirem, persistirem e subsistirem no cenário político não há quem endireite esta traquitana. E se eles são portugueses, eu também prefiro ser espanhola! Por muito que me custe abdicar de um direito democrático que, e em particular no caso das mulheres, foi tão duramente conquistado, começo a acreditar que a única forma de fazer ver aos nossos políticos que eles são uns palhaços oportunistas e incompetentes era ninguém comparecer nas urnas. Rigorosamente ninguém! Se nos abstemos é porque fomos para a praia ou porque ficámos em casa a coçar a micose. Se o voto é branco ou nulo é porque somos ceguinhos ou analfabetos. Pois o que iriam afirmar se ninguém, à excepção deles mesmos para votar em si próprios ou nos seus compinchas, fosse às urnas? Morro de curiosidade e tenho delírios fantásticos com semelhante dia. Urnas cheira a morte! Mas num país eufemístico em que até o fuck dos filmes é substituído por porra, acredito que custe a muitos ter tomates para admitir a realidade ou para chamar os bois pelos nomes. E não será tão cedo que se assumirá que os mesmos têm cornos em vez de chifres, com os quais se entretêm a dar-nos cornadas bestiais. Morra a censura, morra, PUM! E morra a demagogia, morra, PUM, PUM, PUM!

(foto retirada do blogue À Margem da Ria)

quarta-feira, agosto 05, 2009

Land Art II

Ainda na esteira da land art, instalação em Tessalónica, na Grécia.
Objectos do quotidiano transformados em arte contribuem para uma dupla reciclagem: a do que já existe e é canalizável para outros fins; a do olhar.

Land Art





E quem pensa que a publicidade já não consegue surpreender, desengane-se!
Em Fevereiro surgiram três gigantescos pianos de madeira na ilha holandesa de Schiermonnikoog, semelhantes a barcos naufragados que deram à costa, no intuito de promover o já famoso festival de música clássica da cidade (que tem o mesmo nome impronunciável da ilha!). Este decorrerá em Outubro e dará especial ênfase aos compositores russos.
Esta instalação não só tem contribuído de forma suave, prazenteira e impoluta para a divulgação do evento pelos quatro cantos do planeta - o que de outra forma nunca sucederia - como também constitui uma bela expressão da land art.
Ocorre-me que poderíamos enriquecer as nossas já tão belas praias com este tipo de arte na paisagem e criar instalações que não servissem só objectivos de índole estética, mas também prática, num estímulo à criatividade e ao lazer dos que delas pudessem usufruir.

terça-feira, agosto 04, 2009

Graffiti

A palavra graffiti é italiana, plural de graffito, sendo o nome dado às inscrições feitas em paredes desde o Império Romano. Tornou-se mais contemporaneamente uma forma de arte urbana que aprecio imenso, excepto quando os seus autores confundem poluição visual com expressão plástica ou quando não atinam com a escolha dos locais. Como em outros campos, trata-se de uma questão social e seria muito pertinente, no nosso país, pensar em educar a população nesse sentido.
Nos Estados Unidos, por exemplo, alguém que seja apanhado a pichar uma parede é multado e passa a noite na cadeia. Contudo, há locais que são facultados especialmente para o efeito, podendo cada um dar livre curso à sua imaginação. Recentemente em França, cuja capital começou a ser inundada por tags pouco aprazíveis em edifícios históricos, a Câmara obrigou os indivíduos a eliminar os estragos, facultando-lhes igualmente locais adequados para tal prática. Para quando tais medidas por cá?
Um dos mais célebres grafiteiros foi o artista norte-americano Jean-Michel Basquiat, que se popularizou no final dos anos 70 pelas mensagens poéticas que deixava nos prédios abandonados de Manhattan. Posteriormente foi catalogado como neo-expressionista e foi reconhecido como um dos mais significativos artistas do final do século XX.
Os exemplos que se seguem, oriundos de diferentes locais, foram retirados do site de Banksy, que vale a pena visitar pois contém mais graffitis interessantes, desenhos e filmes. Achei particularmente bem apanhados os de New Orleans, dado o contexto específico da cidade após a passagem do furacão Katrina.
Banksy tem 34 anos e nasceu em Bristol, Inglaterra. Poucos conhecem a sua aparência pois aparece sempre de chapéu, nariz e barba falsos. O museu de Bristol expôs este Verão as suas obras pela primeira vez. A este propósito, Banksy comentou: "Este é o primeiro espectáculo que monto no qual o dinheiro dos contribuintes é utilizado para criar as obras em vez de apagá-las". Este indivíduo, que já colocou clandestinamente obras suas no Louvre, tem uma visão peculiar do real, o que se constata não só nos seus trabalhos, mas também nas suas máximas: "Quando eu era miúdo costumava rezar todas as noites por uma bicicleta. Entretanto percebi que Deus não funciona dessa forma, portanto roubei uma e rezei pelo perdão".






















sexta-feira, julho 24, 2009

Maladie artistique


O Dr. Kai-hung Fung, especialista chinês em radiologia, realizou estas tomografias computorizadas em 3D aplicando um arco-íris espectro. Esta técnica permite que estejamos a visualizar, por ordem, a parte inferior de um conjunto de dentes humanos, a superfície de um pulmão e o interior do nariz de uma mulher chinesa doente de trinta e três anos, por inverosímil que pareça.
Quando, em pleno século XXI, a arte se encontra desgastada pela multiplicidade de abordagens, ainda surgem estas surpresas refrescantes, provando que a criatividade é infinda e que a tecnologia é plurifacetada. Esta perspectiva inovadora mostra também que a doença se pode tornar aliada da estética. Presumo que este indivíduo seja suficientemente inovador para adquirir visibilidade. Resta saber se contribui assim tanto para a nossa felicidade, pois eu não me imagino a pôr estas imagens na parede. Descobri-o na rádio Oxigénio, mas tenho mesmo é saudades da XFM. Isso sim, era uma rádio! Até a Voxx e os seus slogans malucos. Saudosista? Não creio. O que é bom não devia acabar.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

David Cerny e a Entropa

David Cerny nasceu a 15 de Dezembro de 1967 em Praga, na República Checa. Após tanta polémica, sabe bem dar um rosto ao nome e constatar que a sua indumentária não defrauda as nossas melhores expectativas.
Como fiquei curiosa em relação à personagem, achei interessante averiguar. Fiz então uma visita ao seu site e verifiquei que já acumula um espólio considerável, entre esculturas, instalações e projectos. Há uns trabalhos mais inspirados do que outros, mas são quase todos bastante peculiares.
Fiquei particularmente fascinada com estas cabeças de 88/89 realizadas a partir de um retrato de Pavel Marek.












Vamos então ao tema quente, começando por olhar para o nosso umbiguito.

Eis os nossos bifes, que por sinal até já foram bem mais suculentos, com a forma das antigas colónias, uma das peças da controversa e recente instalação Entropa - meio Europa, meio entropia (termo da termodinâmica que faz um conjunto adquirir as qualidades das suas partes). A avaliar pela representação das partes em questão, o todo pode bem ser um susto!
Entretanto cogito se seremos carne para canhão ou um país de bovinos, dada a nossa proverbial passividade.


Esta é a Alemanha, com as suas auto-estradas em forma de suástica. Há fantasmas que, desejo, jamais se esfumarão, estimulando a persistência da memória colectiva e o medo do replay.



Aqui está a peça no seu todo. Entropa, "um puzzle com as melhores qualidades possíveis" de cada país, conforme a descreveu David Cerny no catálogo da exposição, em Bruxelas. Esta peça, como é já do conhecimento geral, foi encomendada pelo Governo Checo, agora que o país detém a presidência do Conselho da União Europeia, estando Cerny encarregue de dinamizar uma exposição colectiva de vinte e sete artistas dos diferentes países europeus.
A parte mais gira disto tudo é mesmo olhar para os bonequinhos, uns mais inspirados do que outros. A Áustria é um prado repleto de centrais nucleares. A Bélgica, uma caixa de chocolates, quiçá para atrair criancinhas. A Bulgária, uma casa de banho com sanita à turca. É bem provável que os búlgaros tenham ficado na merda. A Espanha é um estaleiro de betão, provavelmente devido ao seu notório florescimento económico após a entrada na UE. A Dinamarca são peças de Lego. Já a Estónia são dois canivetes suíços com a foice e o martelo. Percebi que há muito não via este símbolo, outrora tão recorrente. A Finlândia é um estrado de sauna. Que aprazível! E a França, um cartaz que apregoa "Estamos em greve!" Professores portugueses, façam um estágio em terras gaulesas e acabem de vez com esta fantochada! A Grécia é um incêndio. Resta saber o que renascerá das cinzas da nossa mais profícua herança cultural. A Hungria são melancias atómicas (que medo!) e a Irlanda uma gaita de foles. Aqui seria mais pertinente pôr os católicos à bulha com os protestantes. A Itália é um campo de futebol em que os jogadores se masturbam com bolas na virilha. Bom, o futebol é a maior prática actual de masturbação colectiva, acho que não foi bem apanhado. A Letónia é um país plano a murmurar "Se tivéssemos montanhas..." Já a Lituânia defende as suas fronteiras russas mijando-lhes. Que chuva de ouro! A propósito do dito, o Luxemburgo é um pedaço de ouro falso que se prostitui. Entretanto a Holanda foi alagada. Cá está, eu optaria pela pedrada colectiva. A Polónia são montes hasteando a bandeira gay, o que não terá excitado muito os seus católicos habitantes. E por aí fora...
Ora, e de acordo com o que se lê no site de David Cerny, a intenção original era mesmo solicitar a participação efectiva de vinte e sete artistas europeus e engendrar um projecto colectivo. Contudo, devido a constrangimentos monetários e temporais, optou-se pela "criação de artistas fictícios que representam os diferentes estereótipos nacionais e culturais desta Europa unida". Não percebi onde estão os tais artistas fictícios. Na peça? Ou na cabeça de David Cerny, Kristof Kintera e Tomas Pospiszyl, os quais, com a ajuda de uma vasta equipa de colegas da República Checa e do exterior, engendraram toda esta marosca? Eles apresentam então as suas desculpas a ministros e deputados por não lhes terem facultado atempadamente essa informação, afirmando que não pretendiam que estes arcassem com a responsabilidade de toda esta sátira politicamente incorrecta. Mais acrescentam que sabiam que toda a verdade acabaria por vir à superfície (o que nem sempre é evidente nos tempos que correm) e que pretendiam mesmo era descobrir se a Europa possui afinal a capacidade de se rir de si própria. Os meninos traquinas acreditam que "Bruxelas é capaz de uma irónica auto-reflexão" e crêem "no sentido de humor das nações europeias e dos seus representantes". Por certo não conhecem José Sócrates, caso contrário não acreditariam nem nisso, nem em nada!
Entretanto ocorre-me questionar se esta instalação será motivo para tanta polémica ou se as manobras de diversão para desviar as atenções dos problemas reais não continuam a ser um dos melhores recursos político-sociais. Afinal, que a UE não é um mar de rosas estamos carecas de saber. Que a arte é, na sua essência, provocatória e irónica, é um dado adquirido. Que todos os artistas almejam o reconhecimento universal, está implícito no trabalho que desenvolvem. Que a República Checa anda apagadita, já tínhamos reparado. E que Cerny era um ilustre desconhecido que saltou para a ribalta, é mais do que evidente. Bingo! E fim de história.
Para terminar a divagação Cernyana, houve mais dois trabalhos que considerei curiosos e cujas imagens se encontram aqui, no final.
O primeiro é um projecto que nunca se chegou a concretizar, segundo o autor por razões técnicas, e que data de 1996. Destinava-se ao World Trade Center e consistia em colocar o porta-aviões Intrepid, na altura ancorado no rio Hudson, sobre os tectos das torres gémeas de modo a formar a letra grega TT (pi). Dado o trágico incidente que ocorreu em 2001, é caso para pensar se Cerny não será um visionário, pois os aviões teriam aterrado em vez de embater nas torres. Just kiding!
O segundo é uma instalação permanente que se encontra na Galeria Futura, em Praga. Foi realizada em 2003 e mede cinco metros e vinte. Os arrojados trepadores enfiam a cabeça nos respectivos traseiros e visionam um filme em que um velhote enfia comida na boca de uma velhinha ao som de "We Are The Champions" dos Queen. Não sei o que é que o Freddy Mercury gostaria de enfiar no Cerny (talvez umas chapadas, talvez outras coisas, talvez nada) mas, pela parte que me toca, gostei de introduzir mais informação nos neurónios. E simpatizei com o indivíduo.


quarta-feira, janeiro 21, 2009

Ilusão de óptica






Ainda na esteira de Magritte e das imagens que brincam com o real ou que o desconstroem, ficam aqui alguns exemplos bem conseguidos da técnica do trompe l'oeil.
Em criança tive um caleidoscópio e um View Master, dois brinquedos que me fascinavam pela possibilidade de me auto-transportar visualmente para uma outra dimensão, colorida e dinâmica, apenas através do olhar. Mais tarde, na adolescência, descobri o mágico e vasto universo da pintura graças a uma enciclopédia de História da Arte que havia lá em casa e aos livros da Taschen. E percebi que havia quem tivesse os meus brinquedos na cabeça e os materializasse em telas fantásticas. E compreendi ainda que o mundo está cheio de beleza: a real, como as paisagens naturais ou as obras do Homem com as quais podemos interagir, e aquela que só nos limitamos a visualizar mas que, ainda assim, nos permite mergulhar em fantásticos universos paralelos. Quando não estamos doentes dos olhos...