quinta-feira, fevereiro 28, 2008


os barcos são a imagem que resta para fugir
mas só as palavras nos embriagam
são labareda que devora os barcos e a memória
onde nos movíamos
esquecemos o que nos ensinaram
e se por acaso abríssemos os olhos
um para o outro
encontraríamos outra imobilidade outro abismo
outro corpo hirto
latejando na imperceptível ferida nocturna

pernoito na precária vida do fogo
este rumor de mãos ao de leve pelo corpo
adormecido na superfície do espelho
assalta-me o desejo incerto de te acordar
e o medo de querer de novo tudo reinventar

Al Berto, Uma existência de papel


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.

Ricardo Reis

(foto Julien Roumagnac)

Just kiding!

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Preto no Branco


Se há programas que me enervam são exactamente aqueles em que pessoas de diferentes quadrantes profissionais decidem opinar taxativamente sobre questões que praticamente desconhecem, baseando-se apenas na sua realidade pessoal ou nos seus recalcamentos. Hoje porém assisti a uns quantos, em diferentes canais noticiosos, movida por natural curiosidade em relação às ilações que os portugueses retiraram das contestações dos professores frente à Ministra da Educação. E como muito me surpreendi com os despautérios da opinião pública, não resisto a analisar as críticas mais recorrentes dos cidadãos que se manifestaram na comunicação social.
O programa Prós e Contras de ontem pretendia clarificar vários falsos pressupostos que se incrustaram na dita opinião pública, ao longo dos anos, no que toca à classe docente e revelar as reais causas da actual indignação dos professores. Já nem ouso afirmar que este programa pretendia estabelecer o diálogo entre os professores e a sua Ministra, pois o tempo da utopia já lá vai e é gritante o autismo que agora impera em versão de cassete pirata curta e repetitiva! "O Inglês no Primeiro Ciclo, as aulas de substituição, os cursos técnico-profissionais e o aumento do sucesso" Como disse?! Não, por favor não repita! Contudo tenho que admitir que a Sra. Ministra tem sorte pois, tal como ela, muitos dos portugueses também não conseguiram ou não quiseram descodificar a mensagem dos docentes.
Vamos aos factos. A Sra. Ministra disse que as suas visitas surpresa desagradaram aos professores, quando na verdade o que lhes não agradou foi o facto das mesmas ocorrerem em horário lectivo, terem uma duração média de quinze minutos e se destinarem apenas à observação das instalações, não contemplando assim a auscultação das opiniões e reivindicações do corpo docente conforme ousou referir no seu discurso de inverdades. E esta é uma afirmação que pode ser corroborada por inúmeros docentes de diversos estabelecimentos de ensino da grande Lisboa. Portanto era bom que aqueles profissionais dos outros sectores, que também são avaliados e que por acaso detestam sê-lo, percebessem que não se temem as visitas da big boss. Os professores são indivíduos que trabalham a toque de campainha e que não podem apanhar trânsito de manhã ou levar tranquilamente os filhos à escola ou até mudar de sapatos por terem pisado caca de cão. Também não podem ter distúrbios intestinais, nem atender telefonemas ou fazer intervalos para cafezito, excepto durante os escassos minutos previstos para o efeito (vinte + quinze durante cinco horas). Mais! Os professores não podem ir de férias em Abril, ou em Maio ou quando lhes aprouver, nem fazer férias repartidas ao longo do ano. Ainda mais! Os professores não podem ousar fazer luto, nem ficar doentes, nem sequer morrer sem atribuir classificações de final de período aos seus alunos! Então por que razão os professores teriam que ter medo de uma visita surpresa da Senhora Ministra?! Talvez porque o seu médico teme a visita da sua Ministra quando faz um domicílio de duas horas, talvez porque o empregado do café teme a chegada do patrão enquanto se senta na palheta com os clientes, talvez porque aquele amigo que trabalha numa multinacional com regalias e vencimento impensáveis na função pública telefona para o escritório da praia e diz que a reunião com o cliente está complicada e durará toda a tarde! E como cada um avalia a realidade alheia por si, retiram-se ilações levianas e erróneas.
Entretanto os professores já referiram infindáveis vezes que não estão contra a avaliação e sim contra a forma irregular, arbitrária e ilegal (assim o entenderam os Tribunais Administrativos!) de que a mesma se reveste. É lamentável que muitas pessoas o não compreendam quando isto já foi explicado vezes sem conta de forma tão clara por todos os legítimos representantes deste sector. Será talvez caso para concluirmos que as dificuldades relativas à língua portuguesa são extensíveis à maioria da população lusa e não apenas àqueles que de momento frequentam a escola!
É necessário clarificar igualmente que não se trata hoje de um protesto da Fenprof e sim de um protesto massivo dos professores deste país, independentemente da sua orientação política ou do sua colocação na hierarquia profissional. Quanto ao argumento de que os professores estão sistematicamente contra todas as medidas do seu Ministério, o que também se ouviu à boca cheia e em tom jocoso, esta é uma afirmação deturpada e falaciosa. Os professores acataram o congelamento das carreiras para conter o despesismo e reabilitar as finanças do país. Os professores acataram uma requisição civil que foi dada como inconstitucional pelo Tribunal dos Açores. A avaliação promete continuar quando seis providências cautelares foram aceites pelos Tribunais Administrativos e, no fundo, os professores ainda se interrogam se devem ou não acatá-la. Não ocorre ao comum cidadão que estes poderiam tão simplesmente ficar em casa sem qualquer respeito ou preocupação pelos seus alunos e familiares enquanto esta política autista e inflexível do seu próprio Ministério se mantivesse? E uma coisa é certa: se os docentes deste país quisessem alinhar num braço de ferro desta índole, certamente que os transtornos causados à sociedade civil fariam recuar os responsáveis pelas políticas governamentais da Educação. Mas os professores não trabalham com máquinas, nem podem ser, por mais que se invista em aulas de substituição, devidamente substituídos por quem quer que seja na sua prática lectiva. Os docentes respeitam o futuro daqueles que ensinam e não pretendem lesá-los, nem mesmo que seja em prol das suas legítimas reivindicações. Há excepções? Claro que sim! E qual é a profissão em que tal não se verifica? E por que razão não se recordam os cidadãos que o artigo 102, aquele que permitia a um professor faltar uma vez por mês, foi concedido pelo Salazar à classe docente pela correcta noção do desgaste que esta profissão implica? É caso para dizer que já houve ditadores mais lúcidos e honestos do que estes seus contemporâneos travestidos de socialistas! E para que servem as estatísticas que corroboram ser esta uma das profissões com um maior índice de stress e uma maior incidência de esgotamentos nervosos e depressões? Fica mais barato ao país providenciar-lhes cuidados médicos e substitui-los por outros profissionais?
Relembre-se ainda que os professores têm há alguns anos, como já se referiu, as carreiras congeladas, os vencimentos congelados e que a actual progressão na carreira passa pelo número de vagas existentes na sua escola, o que significa que se o corpo docente for maioritariamente envelhecido a progressão estagna para os mais jovens. Como é que se pode assim falar de progressão por mérito e premiação dos profissionais mais qualificados quando o que há é uma progressão por quotas numa perspectiva economicista e injuriosa?! De facto, promover quem está no topo da carreira e já não pode ganhar um maior salário impedindo que os restantes progridam em termos monetários é somente uma forma astuciosa de implementar uma política de engordamento dos cofres do Estado. E para quê, se todos pagamos mais impostos, temos menos regalias sociais, vemos aumentar o custo de vida, subir os juros e fechar os postos de saúde, entre outras medidas terceiro-mundistas?! E o povo aplaude, o povo rejubila, o povo hurra bravos ao Sr. Engenheiro! E ainda há quem refira indignadamente a ausência de dedicação e de espírito de sacrifício da classe docente, como hoje ouvi, o que é absolutamente descontextualizado e ridículo pois os professores não são padres nem as suas despesas se pagam com idealismos!
Creio que mesmo assim o que é consensual é que a Sra. Ministra devia pensar seriamente na reestruturação dos Programas, a começar pelos do Primeiro Ciclo e pelos dos cursos CEF e técnico-profissionais (o escassos que existem), pois como foi demonstrado ontem é essencialmente aí que reside a causa do insucesso escolar. É no facto das escolas terem currículos exigentes e unidirecionados, de não haver alternativas consoante o perfil, as capacidades e as apetências dos alunos, tipo o que acontece na Alemanha, por exemplo, há umas quantas décadas. Mas ao invés disto, o que o Ministério vem implementando há longos anos, e é verdade, é uma política de facilitismo como forma de combater o dito insucesso dos alunos. Basta saber que estudantes do Ensino Básico com sete, oito ou mais negativas, com elevado índice de absentismo e total ausência de empenho e de trabalho, interpõem recurso à Drel e passam de ano ao abrigo da elevada taxa de repetência e da idade avançada. Isto se o Conselho Pedagógico não for antecipadamente coagido a fazê-lo, pois a coacção é um facto, quanto mais não seja pela quantidade absurda de documentos que é necessário preencher e de reuniões que têm que se realizar para fundamentar as causas do insucesso dos alunos. Para já não referir que uma das condições da tal suposta progressão na carreira por mérito é a ausência de abandono dos alunos e a obtenção de sucesso pelos mesmos. Será caso de cogitar a hipótese de dar aulas atrás dos pavilhões, no salão de jogos ou no átrio da igreja onde os absentistas fumam charros para evitar que faltem às aulas? Será adequado dar o teste para trabalho de casa, corrigi-lo depois e realizá-lo na aula seguinte, enviando até para casa dos que se baldam o teste já feito para estes poderem vir realizá-lo, se faz favor, no dia em que mais lhes convier? E aos bons alunos ensinarão os mestres que eles são uns totós visto que os seus colegas não reprovam por faltas, nem por mau comportamento, nem por más notas? Premeiem-se portanto os gandas malucos e mostre-se aos outros que eles são uns otários? Mas o mais grave, e que ninguém parece ponderar, é qual vai ser a integração destes indivíduos no mercado de trabalho ou quais serão a curto prazo as consequências deste tipo de procedimento para o progresso global do nosso país. Talvez quando a Sra. Ministra se lembrar de penalizar monetariamente os pais pelo insucesso dos seus filhos este diminua então de verdade!
Ouvi também falar na disparidade da qualidade entre o ensino público e o ensino privado. O que não se nomeia é a dignificação do exercício da actividade docente no sector privado, nem a disparidade das condições de trabalho ao nível das infraestruturas e da existência de funcionários, nem o apoio facultado pelas famílias aos estudantes, nem a disparidade dos conhecimentos, empenho e disciplina dos próprios alunos. Assim como ninguém nomeia a existência de múltiplas actividades facultadas pela escola pública que passam pela carolice e investimento não remunerado de inúmeros docentes, a saber clubes de escrita criativa e de leitura, grupos de teatro, núcleos de desporto, actividades dinamizadas pelas bibliotecas, jornais escolares, salas de estudo, gabinetes de inserção e de apoio ao aluno, visitas de estudo, entre tantas outras. E ninguém é pago para tal, nem isso se reflecte na progressão na carreira ou no acesso à titularidade! Assim como não se refere que é das escolas públicas que saem a maior parte dos licenciados deste país que encontram receptividade aos seus credíveis diplomas no mercado de trabalho, estudantes que se formam por mérito e não pelo pagamento de elevadas propinas ou pela atribuição de inúmeras classificações em diferentes cadeiras pelo mesmo docente(?!).
Que futuro para um país em que não se dignificam aqueles que presidem a uma área vital para o seu real desenvolvimento? Corações ao alto!

(quadro de E. Munch, O Grito)

terça-feira, outubro 23, 2007

Zás, tudo ao léu!


As telenovelas da vida real estão, mais do que nunca, em alta!
Ora principiou este bizarro fenómeno, se bem nos recordamos, pela clausura de um bando de toscos num barracão comunal minado de câmaras, onde inventavam tretas impensáveis para se entreter enquanto chiavam pela ordem de soltura. Mimoseavam as audiências com desvaires de polichinelo ou de estivador, abençoados entretanto pelas lágrimas da casamenteira apresentadora, e deliciavam o povo quando sucumbiam aos encantos alheios ou próprios debaixo das mantas.
A coisa foi avançando, que a televisão está mais do que nunca ao serviço da cultura e da intelectualização das massas, e vieram depois os pseudo-vips em versão rural ou em paródias circenses, as ditas belas e os pretensos iluminados a usufruir já de instalações mais condignas e outras quantas pérolas similares revistas e incrementadas. Hoje, e assim o exige a actual guerra de audiências, temos os noivos de Portugal e os aspirantes a vedetas do nacional cançonetismo em dose dupla. Três canais em plena sintonia! É lindo!
Como qualquer fenómeno sociológico, os reality shows merecem então que nos detenhamos a apreciá-los nas suas múltiplas facetas. Comecemos pelo público, esses vampiros que se alimentam da vida alheia e que querem figurar por escassos segundos que seja na caixinha mágica do vizinho, aquele sacana emproado que, esperam, se roerá de inveja. Quem poderá algum dia olvidar, por exemplo, os cromos anónimos com que o Big Brother nos presenteou à entrada do estúdio dos directos e cujas performances rivalizavam com as dos próprios concorrentes? Este foi o primeiro contributo de vulto para o espólio luso de improváveis personagens-tipo à portuguesa, ultrapassadas tão somente pelo nosso Emplastro, na versão popular, ou pelo Castelo Branco, na versão pretenso vip!
Não esqueçamos entretanto as famílias, aquelas pessoas solidárias que se despem por amor às crias, de forma desprendida e aceitando o pesado fardo da passageira notoriedade de forma estóica. Voltando ao Big Brother, pois foi de facto paradigmático, lembremos os progenitores cujos confrontos mútuos e respectivos impropérios nos permitiam melhor compreender a génese dos carácteres dos rebentos. Em dias de menos sorte, em que não havia rixa ou palavrão, era a devassa que atingia o rubro: a cor do primeiro cocó dos meninos, a primeira mecha de cabelinho ostentada no cordão de ouro ao pescoço, o primeiro castigo por lhes terem fanado a guita do porta-moedas ou a primeira vez que chegaram a roupa ao pêlo à namorada. Entrava de seguida a comunicação social na paródia, como é hábito e normal, e tudo era dissecado e desmultiplicado em revistas foleiras que acorriam sequiosas de mais caca para lançar no ventilador, entrevistando para o efeito todo o bicho careta que conhecera as ditas criaturas nesta ou em anteriores encarnações. Assim se deliciam as sopeiras ávidas dos podres alheios, quiçá para melhor lhes cheirarem os seus, enquanto todos os envolvidos rejubilam acreditando-se genuínas vedetas. E assim se produziram surreais fenómenos televisivos extra-concurso, como a abertura do noticiário nacional com o pontapé do Marco na Coisinha ou o charro fumado pelo Garnisé. Surge então mais uma almejada mudança, na esteira das medidas progressistas, desta feita na história das notícias televisivas: a sua credibilidade, depois destes desvaires sem precedentes, nunca mais foi a mesma!
Eis senão que hoje, tantos anos volvidos, a história se vai repetindo indefinidamente sem fim à vista. Vivemos de telenovelas ficcionais e reais. Algumas questões imperam: o que move as pessoas a uma exposição deste calibre? Que prazer experimentam em revelar ao mundo as suas remelas, os seus escarros matinais, o seu furúnculo na virilha ou as suas digestões ruidosas? Que estranho desejo as leva a contar a história da sua vida aos quadradinhos, as suas fraquezas, os seus podres? Que alegria lhes dá entabularem monólogos absurdos com câmaras de televisão e chorarem baba e ranho com saudades de familiares dos quais se separam voluntariamente durante uns dias? Que peculiar acesso de solidariedade as leva a tornarem-se amigas do peito de indivíduos que conhecem há meia dúzia de dias, quando sistematicamente ignoram familiares, colegas de trabalho ou vizinhos de anos? Finalmente, o que interessa tudo isto aos milhões de pessoas que assistem enlevada e fielmente a estes programas em detrimento daqueles que focam as questões políticas, sociais e económicas que presidem os seus destinos ou daqueles que, de algum modo, as enriquecem e aumentam a sua cultura geral? É esta a evolução das mentalidades no século XXI?
Parafraseando os gauleses, é caso para dizer "Estes romanos estão loucos!" . Depois de desnudar gradualmente o corpo, o que foi, a todos os níveis, uma excelente ideia, o ser humano entrega-se agora à nudez da alma à escala mundial, o que me parece muito mais vergonhoso e pornográfico. Basta ver o programa da Oprah ou do Dr. Phil e arrepelar os cabelos, corando pela miséria da exposição alheia. Será que agora toda a gente se convenceu que é de Hollywood? A humanidade precisa de uma terapia colectiva!
Haverá vida em Marte?!

(foto Alessandro Pautasso)

quarta-feira, outubro 17, 2007

Triste fado

Este é o grito que me sai para não sufocar! O grito que se impõe quando sei que o fisco perdoa dívidas de milhões de euros a indivíduos privilegiadíssimos, enquanto esmifra, por exemplo, cidadãos idosos que subsistem com quantias pornográficas. O grito que irrompe quando leio que a Caixa Geral de Aposentações admitiu hoje que nunca considerou incapaz para o exercício das funções a professora a quem foi retirada parte da língua na sequência de um cancro, deixando a docente com grande dificuldade em falar. O grito que se solta quando constato que o orçamento geral de Estado para 2008 é um ainda maior e mais descarado assalto ao bolso dos contribuintes. O grito que extravasa quando fontes fidedignas me relatam os desvios monumentais que ocorreram aquando da Expo 98 e percebo que há coisas que nunca mudam. O grito que constantemente aflora aos meus lábios, vindo lá do mais fundo das entranhas, porque sofro com as múltiplas impotências inerentes à minha condição humana, porque sou mortal, bem como todos aqueles que amo, mas, e hoje mais do que nunca e acima de tudo, porque sou portuguesa!
"Às armas, sobre a terra e sobre o mar. Pela pátria lutar!" É notório o quanto a maioria dos portugueses desconhece o hino nacional! A
té quando vamos aguentar calados e passivos? Para quando o grito colectivo?

(foto Alessandro Pautasso)


sábado, outubro 13, 2007

Farpas


Há coisas que nunca mudam! Até quando?...

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis, no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, Pátria, 1896

(foto Julien Roumagnac)

Os gloriosos malucos das máquinas voadoras



O Porto tem um encanto muito particular e este espectáculo do Red Bull veio lembrá-lo em directo a todo o país, especialmente aos que gostam de tesourar na Invicta.
Já lá vão uns tempos, mas não resisti a recordar este evento cheio de adrenalina que tanto lucrou com a paisagem envolvente e o azul do Douro.
Fazem falta outras iniciativas similares, pois Portugal é pródigo em belas cidades e todos ansiamos por algo mais do que festivais ao longo do Verão. Dêem-nos asas que nós voamos!

(fotos Kika)

quinta-feira, setembro 13, 2007

Vozes que se espalham

Excerto de um artigo de J. Pacheco Pereira retirada do Abrupto, comentando o livro de Andrew Keen que abaixo se visualiza O Culto do Amador - Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura, pois nele revejo aquilo que penso.



ESTÁ A INTERNET A MATAR A NOSSA CULTURA?


A crítica de Keen e de outros "apocalípticos" falha ao menosprezar o enorme adquirido que se deu nestes mesmos 150 anos, a verdadeira revolução social, que permitiu a muitos milhões de pessoas, que viviam dominadas apenas pelo seu trabalho brutal e pela cultura "folclórica" tradicional, aceder a consumos que nunca tiveram e passar a ter voz em áreas que sempre lhes estiveram vedadas, seja como audiências de televisão, seja em estudos de mercado, seja em sondagens, seja comprando e votando. O efeito dessa voz cria uma enorme perturbação, degrada tudo, simplifica, confunde, mas, ao alterar sem retorno os equilíbrios elitistas do passado, gerou novas condições de democraticidade, competitividade e criatividade que também se verificam na rede.
Não sei até que ponto se encontrará um qualquer equilíbrio que trave o lixo demagógico que hoje enche tudo impante da sua nova voz tecnológica e salve a "nossa cultura", mas não posso, em nome dessa mesma "cultura", deixar de valorizar o acesso de milhões à porta de um mundo em que habita o "espírito", mesmo que assustado com tanta confusão.

(No Publico de 8 de Setembro de 2007)

quarta-feira, setembro 12, 2007

Quando outros o dizem por nós melhor do que nós mesmos... ( III )




Vais olhar para o que vês. Mas vais ter de olhar absolutamente. Vais tentar olhar até ao apagamento do teu olhar, até à sua própria cegueira, e através dela deves continuar a tentar olhar. Até ao fim.

Marguerite Duras, Textos Secretos


Hoje preciso de muita clarividência e não estou segura de consegui-lo...

(as minhas desculpas ao autor desta bela foto pois perdi-lhe o rasto)

Cenas bem esgalhadas

Battle of The Bands - ZappInternet


Não interpreto como uma apologia à violência, antes como uma sátira ao tempo conturbado em que vivemos.


C2C (Coup2Cross) - DMC 2005 - ZappInternet


Todos os estilos têm os seus virtuosos.



Mona Lisa descending an staircase (corto de animacion) - ZappInternet


Arte fusionada.




segunda-feira, setembro 10, 2007

Quando outros o dizem por nós melhor do que nós mesmos... ( II )


Ao meu amigo Paulecas, em sintonia com a saudade e a tristeza que experimenta quando nisso pensa um pouco mais do que o habitual:


Deixai-o chorar! é nobre
Quem chora tamanho amor
Ninguém alcunhe de pobre
Ao rico de tanta dor;
E quem não tem a alma fria
Passando escute e não ria.

________________________________

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental

(foto Martin Andreasen)

quinta-feira, setembro 06, 2007

Àqueles que passam


"Às horas em que a paisagem é uma auréola de Vida, e o sonho é apenas sonhar-se, eu ergui, ó meu amor, no silêncio do meu desassossego, este livro estranho como portões abertos numa casa abandonada. Quem escreveu esta frase magnífica? Fernando Pessoa, em obra atribuída a Bernardo Soares (que ele diz não ser propriamente um heterónimo, mas um "semi-heterónimo"). Esta teria sido a frase que Pessoa imaginara para iniciar o seu Livro do Desassossego. Lembro-me ainda, no princípio dos anos 80, quando o meu pai, com mais duas colaboradoras, preparava a primeira edição desta obra extraordinária. Já nessa altura o grande problema era a forma de ordenar os múltiplos fragmentos textuais. Além disso, para além dos passos que Pessoa considerara como fazendo parte dessa obra futura, havia, como hoje continua a haver, os textos sem indicação precisa, que poderiam (ou não) ser incluídos na obra."

Eduardo Prado Coelho, Desassossego e loucura, crónica do Público de 25-09-06 (um grande senhor das nossas letras, nomeando dois iguais)


Ultimamente são muitos os que partem. Recentemente foi Eduardo Prado Coelho, hoje Luciano Pavarotti, O Tenor. Único! Inigualável!
Finalmente os jornalistas deixam-se das tretas de "vítima de doença prolongada" e chamam os bois pelos nomes. Pavarotti morreu de cancro no pâncreas aos 71 anos. Com os atentados ecológicos que cometemos, as radiações a que nos sujeitamos, o ar que respiramos, a água que consumimos e, acima de tudo, os alimentos que ingerimos (corantes, conservantes, emulsionantes, edulcorantes, fenilalaninas e outras quantas dezenas de adulterantes, para não nomear já os animais que se alimentam dos seus semelhantes e que nós posteriormente deglutimos), espanta-me que não estejamos todos cancerosos. Este é o real flagelo da nossa era e só quem com ele contacta directamente é que sabe o quão desumano, doloroso e avassalador o cancro pode ser. Torna-nos genuinamente impotentes para o que quer que seja e faz-nos encarar a morte como uma bênção.
Considerações à parte, a minha homenagem a estes dois grandes homens que directamente contribuíram para a minha felicidade: o professor Prado Coelho e o tenor Luciano Pavarotti. Tal como esta borboleta, não passaram despercebidos nem me deixaram indiferentes à beleza e peculiaridade das suas existências. Ao contrário dela, e ainda assim não tanto quanto seria de desejar, foram menos efémeros. Sou-lhes grata por terem partilhado os seus dons.

(foto Kika)

A caminho de lugar nenhum


2005-06-24


Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/2005


(...)
1- Combate à fraude e evasão fiscais. - A solidariedade entre todos os Portugueses, para colocar o País de novo na senda do crescimento económico e implementar as medidas necessárias para a consolidação das contas públicas, impõe um combate sem tréguas à fuga a um dos deveres básicos de cidadania: o pagamento de impostos.
(...)
d) Congelamento das progressões e suplementos - a imperiosa necessidade de controlar a aumento da despesa pública obriga o Governo a consagrar, a título meramente excepcional e temporário, medidas de congelamento das progressões na carreira e dos suplementos remuneratórios que se manterão nos seus valores actuais. Esta situação excepcional manter-se-á até 31 de Dezembro de 2006, data em que deverá entrar em vigor a revisão do sistema de carreiras e remunerações.

Quem desejar aceder ao documento na íntegra pode usar a hiperligação e constatar que este texto, apesar de tão metafórico e eufemístico, não se insere na categoria de prosa poética.
Algumas ilações a retirar da leitura destas citações:
1ª- Entenda-se por solidariedade ao País (com letra maiúscula como nos velhos tempos, evitando reminiscências da abrilada) ser penalizado por nada dever ao fisco, pois é exactamente o que acontece aos funcionários públicos. Os seus descontos são efectuados ao cêntimo, sem qualquer hipótese de actuação fraudulenta. Entretanto aqueles que de facto fogem aos impostos são beneficiados com aumentos no vencimento e progressões nas carreiras, o que pode ser tudo menos solidário. A palavra solidariedade adquiriu portanto novos significados e múltiplas cambiantes desde a tomada de posse do actual governo, ainda que não tenhamos sido previamente inteirados da respectiva revisão semântica, nem das suas nefastas repercussões. É certo que devíamos ter interiorizado há muito os perigos e as armadilhas das maiorias e ter já aprendido a evitá-las, o que é inviável para portugueses que não atingem sequer as graves consequências que estas, e outras tantas medidas compiladas neste e noutros documentos análogos, acarretam para os visados e para o país.
Uma só questão: poderá haver crescimento económico sem poder de compra e com um tal recurso ao crédito e ao endividamento?
2ª- Há quem perca qualidade de vida e aperte um cinto já sem buracos, enquanto inúmeros não passam facturas, alguns criam sacos azuis e pavoneiam-se com sacos Louis Vuitton, outros desfilam em automóveis topo de gama a expensas do erário público e por aí fora, todo esse rol interminável que já cansámos pois nada se altera. É então um dever básico de cidadania um conjunto de indivíduos contribuir solitariamente para colmatar os buracos orçamentais criados por terceiros? Bom, talvez até constitua um óptimo argumento a usar perante um povo que não domina, nem em teoria nem na prática, este conceito arrevesado que a Europa nos trouxe por inerência.
Os romanos convenceram o povo da culpa dos cristãos e serviram-nos na arena para diversão das massas, mas todos sabemos a quem pertenciam realmente os crimes. Povo bem manipulado é povo facilmente governado, em especial quando até gosta de telenovelas e noticiários com Maddies (com todo o respeito pela criança, como é óbvio).
3ª- As palavras excepcional e temporário alteraram-se em termos semânticos, quiçá até orgânicos, visto que se tornaram elásticas! Já lá vão mais de dois anos e, ao que consta, a situação vai permanecer imutável. Note-se que o prazo cessava em 2006. Estamos em 2007 e já constou que se prolongará ao longo de 2008. Visto que não nos podemos apoiar na credibilidade de quaisquer palavras ou promessas, resta-nos a esperança de que a recente etimologia destes vocábulos não seja ad eternum, caso contrário o genuflexódromo oficial (como diz o meu amigo Monsieur de Guillotin) contará com tantos peregrinos que terá de sofrer novo alargamento!
No entanto, e segundo sondagens que podem ser objecto de manipulações, os portugueses estão satisfeitos com o governo. A inveja, sinónimo de mediocridade, sempre foi uma das nossas características mais notórias. Inveja de quê? De uma ideia quimérica
de privilégio decorrente da velha máxima de que os funcionários públicos são uns felizardos porque não fazem nada? E que mesmo ganhando uns trocos inferiores aos dos seus colegas do privado são uns sortudos? Ainda que assim fosse, é triste constatar como os lusos patrícios nivelam sempre por baixo! O primeiro e mais acalentado sonho do português é não fazer nada. E ao invés de almejar o progresso comum, contenta-se, parece que até se regozija mesmo, com a desgraça individual.
Deixemos-nos de lirismos: nem uma aldeia global conseguimos ser, quanto mais uma nação comunitária!
4ª- Tememos que se ande a ponderar a implementação de novas medidas básicas de cidadania, como a retirada do rendimento social de inserção, do subsídio de desemprego, do abono de família, das comparticipações médicas, et caetera. São quantias magrinhas, mas grão a grão enche a galinha o papo. E venham mais multas!
5ª- Queremos contribuir solidariamente para o fim da crise (a de 1383/85 ou é uma mais antiga? Já não sabemos bem, contas até nem são o nosso forte) e aliar-nos ao governo nesta luta. Já que se tornou usual no nosso país o desempenho de funções mal remuneradas por cidadãos do leste da Europa, sugere-se então que os milhares de professores que se encontram sem trabalho sejam chamados a intervir num justo intercâmbio laboral. Chegou a hora de dar um cunho ainda mais abrangente ao conceito de solidariedade e presentear os países de leste com a nossa contribuição para o seu rápido florescimento, para que em breve possam estar a ultrapassar-nos como é hábito e normal. Eis uma excelente iniciativa para acabar com as chatices da classe docente e poupar em subsídios de desemprego que só contribuem para aumentar o buraco orçamental. Até porque, e em última análise, os professores são duplamente culpados: são uns funcionários públicos que não fazem nada e uns cretinos que seguiram a via ensino ao invés da via profissionalizante! Felizmente esta irregularidade já foi detectada pela argúcia incontornável da senhora ministra da educação, a qual encetou uma nobre campanha de desencorajamento aos jovens universitários que almejem cometer o mesmo delito. É óbvio que lhes resta sempre a opção de serem filósofos trolhas, historiadores merceeiros ou linguistas serventes de pedreiro, mas o mais sensato é optarem mesmo por alguma estratégia mais elaborada, tipo voltar ao primeiro ano, pagar novas propinas e constituir família em 2020. Já os mais novos devem, por sua vez, enveredar pelo técnico-profissional de modo a assegurarem os empregos dos professores do quadro, senão de todos, pelo menos dos que já não têm idade para se dedicar à pesca da sardinha. E se pensarem em desistir para trabalhar para o sustento da família, é-lhes interditado o acesso às discotecas e aos estádios de futebol, à boa moda prepotente e directiva agora implantada na nação, vulgo "Ou tás quetinho ou levas no focinho!"
"Os ricos que paguem a crise" é um slogan perfeitamente démodé! Agora o que rende é massacrar mesmo a função pública, na esperança de virmos a assistir, num futuro próximo e glorioso, à derradeira etapa desta magnífica cruzada: a privatização da classe política ou, em alternativa, a sua reinserção profissional na reforma agrária.

(foto Martin Andreasen)

sábado, agosto 25, 2007

Nostalgia de Verão


Nos Verões, à semelhança do que ainda hoje se passa, muitos eram os que rumavam até ao Algarve, a Côte d'Azur nacional. Como não havia auto-estrada, a viagem alongava-se e era bem mais bonita. Sempre adorei ver desfilar paisagens e povoações pelos vidros do automóvel e, ao contrário dos que lamentam as distâncias a percorrer, gostava de viver num país maior e ainda mais discrepante em termos de relevo.
O Algarve nada tinha a ver com a selva contemporânea. Era um paraíso à beira-mar plantado, tranquilo, bastante desertificado
e sem poluição. As praias onde agora se empilham os ilustres e os paparazzi, com os seus estacionamentos de sete euros e os seus restaurantes in de preços pornográficos, estavam praticamente desertas e proporcionavam uma genuína sensação de liberdade. Bastava descer as escarpas, escolher (que belo verbo!) um local aprazível junto às rochas ou debaixo das cabaninhas, colocar as toalhas na areia dourada e limpa e mergulhar na água transparente e mansa onde se viam peixitos. Havia tantas amêijoas, conquilhas e caranguejos que era impossível resistir ao apelo de os apanhar, ou às infinitas conchas e pedrinhas de múltiplos tons e formatos que eram o colar do mar. O cheiro da maresia era mais intenso, as cores mais vivas e brilhantes e os ruídos eram de facto os da natureza, adoçados pelo canto dos passarinhos. Éramos meia dúzia de aventureiros que saíam da rota habitual em busca desta felicidade, que então parecia um dado adquirido e agora não passa de uma miragem. E mesmo assim os poucos presentes acabavam por interagir ao longo do dia, partilhando sanduiches e falando de política, o assunto quente da época para gente jovem e progressista que gostava de ter um papel activo no rumo dos acontecimentos. As mulheres usavam aqueles óculos enormes que as aparentavam às moscas, e que entretanto voltaram a estar na moda, e protegiam os cabelos com óleo de coco e chapéus de palha glamorosos. Para nós havia bonés e touquinhas coloridas de algodão que, misturadas com as sardas, nos davam um ar de traquinice saudável.
Naquela altura as pessoas eram menos individualistas, por isso as famílias juntavam-se aos amigos e partiam de Lisboa em caravana nos carros atafulhados de bagagem e de gente. Os tejadilhos iam cheios de bricabraques presos à grade metálica por elásticos com anzol e as palas traseiras varriam depois o chão devido ao peso, fazendo coro com os rádios caprichosos que lançavam mais ruídos de batata frita do que música propriamente dita. Todos estes preparativos demoravam horas intermináveis, pelo que nós nos divertíamos a andar de bicicleta, a jogar às escondidas ou a atazanar os cães, até sermos cuidadosamente depositados num colo vago ou num cantito liberto. Ainda não havia a imposição do cinto ou das cadeirinhas, o que tornava tudo mais dinâmico e caloroso.
A primeira noite era sempre muito especial, pois o céu estrelado e a temperatura amena permitiam ceias ao ar livre e mergulhos fora de horas, privilégios que o quotidiano não nos proporcionava e pelos quais esperávamos o ano inteiro. O ar estava impregnado daquele cheiro doce e meio abaunilhado dos loendros, que até hoje associo sempre às terras que avistam África. Os quartos de outras eras arejavam entretanto, repletos da magia das coisas que já não existem: livros de adolescentes ingénuas e românticas, cartilhas escolares do tempo dos avós, jogos de dominó, de loto e de xadrez, balancinhas de cobre com pesos, santinhos daqueles que ficam verdes de noite e velam pelo nosso sono, camas de ferro com colchões de palha, o jarro com a bacia e a toalha de linho para espantar o sono pela manhã e tantos outros vestígios de vidas que se esfumaram deixando rasto. E havia ainda aquele momento fascinante em que eu seguia o tio Manuel para o ver tirar as dentaduras de gengivas enormes e vermelhas e escová-las com esmero. Na altura ele já tinha desistido de falar, mas os olhitos marotos e brilhantes riam-se para mim, deliciado com a minha cara de genuíno espanto perante uns dentes que saiam direitinhos da boca e a ela retornavam mais luzidios. Por mais vezes que assistisse àquele ritual, a verdade é que nunca me cansava.
Como todas as pessoas que estão caladas, o tio Manuel apercebia-se muito melhor do que se passava em seu redor e foi o único a descobrir que a alegria que trazíamos das excursões às amoras se devia mesmo aos medronhos quentes, as nossas primeiras experiências embriagantes com direito a caganeira, ressaca e tudo o mais! Nunca conheci ninguém que dialogasse assim com os olhos. Era o seu dom e talvez por isso não se desse ao trabalho de usar a língua e os dentes ambulantes, ou talvez porque se tivesse cansado de retorquir sempre que era atropelado pelo discurso da cara metade, quando não pela peruca que dela saltava com a ira desmedida. Para já não falar nos delírios do cunhado que, quando amuava por uma qualquer razão incompreensível para comuns mortais, abria a portada e metia de fininho "o pé na greta", como ele dizia, para ter uma crise de reumático e desencantar um motivo válido para ser um resmungão de marca maior. Grande personagem, que uma vez se ia afogando para salvar uma peúga que o mar teimou em arrancar do tal pé reumatoso, que podia arejar na greta mas que não demolhava na água salgada sem capota. Lá foi o meu pai arrancá-lo às ondas traiçoeiras da Adraga, pois isto infelizmente não foi no Algarve, mas ele nunca lhe perdoou a perda "do peúgo" (no seu entender, meia de homem não podia ter um nome feminino!). Enfim, era perfeitamente compreensível que o tio Manuel não quisesse falar e isso tornava-o muito mais interessante aos nossos olhos, pois aquela geração de tios-avós e avós, que também eram meus por empréstimo e que ninguém desterrava para longe, eram bizarros e protectores quanto baste. E só ele mantinha aquele espírito de criança que o fazia cúmplice natural das nossas traquinices. Só ele e o meu pai não se zangaram, por exemplo, quando eu resolvi cantar pela rua fora com um melão à cabeça que era quase do meu tamanho. Vínhamos das compras e espontaneamente decidi extravasar a alegria e armar-me aos cágados, visto que até tinha a Becas, já mais velha, a apoiar a marosca. Mas o melão não era bem como uma bola de râguebi e, num rodopio mais elaborado acompanhado de uma nota mais esganiçada, escorregou-me das mãos e escaqueirou-se no empedrado. Caramba, era um belo melão sumarento e ali se findou ingloriamente, não sem me dar o merecido banho, claro! Por mais consciente que estivesse do castigo que se ia seguir, a verdade é que tive um dos maiores ataques de riso da minha vida, daqueles que lavam a alma e nunca mais se esquecem.
Era assim o Algarve da minha infância, onde passava duas ou três semanas antes de ir para o norte, feliz pelo contraste entre estes dois mundos dentro de um mesmo e pequeno país e dentro da minha pequena vida. Era um Algarve que já só existe na minha memória, mas que me proporcionou um manancial de vivências fantásticas e que associo a um contexto paradisíaco que se perdeu para sempre devido ao inevitável progresso e, acima de tudo, à estupidez dos seres humanos. Bom, Adão e Eva também conseguiram dar cabo do Paraíso e eram só dois!

(foto Shazeen Samad)

terça-feira, agosto 21, 2007

Copérnico cubista

Um amigo meu esteve recentemente em Madrid e contava-me entusiasticamente as suas impressões da capital espanhola e o itinerário cultural que tinha feito. Como é mais dado à diversão do que à cultura, notava-se que estava orgulhoso por, desta feita, ter calcorreado mais museus do que discotecas. A dado momento referiu a visita ao Centro de Arte Moderna Reina Sofia como um dos pontos altos da viagem, gabando acima de tudo o quadro Copérnico. Bom, fiquei surpresa mas achei por bem não me precipitar e comecei a rever mentalmente alguns dos pintores cujas obras figuram neste espaço e os nomes das mais emblemáticas. Entretanto ele continuava a nomear enlevadamente a tela Copérnico, as suas consideráveis dimensões, o desespero contido nas imagens e blá, blá, blá, enquanto eu pensava "Caramba, o Copérnico foi astrónomo, matemático e muitas outras coisas, mas por que diabos estará retratado numa tela de um museu de arte moderna?! E desespero, só se for devido à teoria heliocêntrica não ser evidente para os seus contemporâneos. E quem é que o pintou?!" E de repente, pela descrição do quadro e pela vaga similitude fonética, acendeu-se a lâmpada na minha cabeça! "Ouve, tu estás a falar da Guernica do Picasso, meu cromo!" Altas gargalhadas, desculpas com o adiantado da hora, o vinho do jantar e os posteriores digestivos. Bem, Copérnico certamente daria pulos de alegria na cova se figurasse na parede pelo punho de Pablo Picasso!

(quadro de Pablo Picasso, Guernica)