Sábado, Dezembro 12, 2009

Mundo cão espera o Pai Natal


Vivemos num tempo em que expressões como faz favor, com licença e obrigada caíram em desuso. Aliás, um simples cumprimento é para muitos altamente constrangedor e indício de extrema disponibilidade para com o seu semelhante, pelo que optam pela hipótese de rosnar entre dentes um b'dia olhando em frente ou, versão ainda mais popular, ignorar terceiros por completo mantendo a boca fechada. Curioso mesmo é quando cumprimentamos estes espécimes e recebemos em troca um olhar escandalizado, de suprema violação íntima, que nos questiona: "Conheço-te de algum lado?". Ou melhor ainda, como me aconteceu há tempos, cumprimentar um vizinho no restaurante, de fugida e rodeada de amigos, e só bem mais tarde reparar na esposa, que me respondeu ao sorridente "Boa tarde, como está?" com algo similar a "Sim, boa tarde, porque está cá a família toda, não é só o Sr. X!", num tom audível a dez quilómetros e uma fúria tão desgrenhada que lhe tremiam as bochechas de buldogue, enquanto o dito cujo arreganhava um tímido sorriso amarelado e deixava que o seu metro e oitenta e tal sucumbisse aos oitenta e tal quilos da cara metade. Enfim, agora tenho o cuidado de dar uma varridela visual pelos recintos antes de me aventurar a cumprimentar um qualquer conhecido, não vá o diabo tecê-las.
Entretanto as próprias escolas já adaptaram a sua postura aos tempos contemporâneos, pelo que é frequente os alunos passarem pelos professores, que com eles trabalham três ou mais horas semana após semana, e pretenderem não os ver, retribuindo-lhes já muitos destes da mesma moeda. E como tudo isto está, imagine-se!, interligado, a bola de neve vai crescendo. Com a proibição de fumar no interior dos recintos escolares, entendendo-se por interior as áreas ao ar livre e os espaços verdes, pois é um exemplo nefasto para os discentes, toda a população fuma agora fraternalmente à porta das escolas, sendo os ouvidos docentes mimoseados com fod... e car... em abundância e escorregadios olhares de desafio típicos de quem tem as costas quentes. É calar e deixar arder, pois enquanto cidadãos não podemos retorquir nem advertir o próximo. Isso são tretas lá da Suíça e de outros países de totós onde alguém que nos chame a atenção é ouvido e respeitado. "Não vou cuspir para o chão? Essa é boa! Quem é você para me dizer isso? Nem o conheço. Quer que engula a escarreta é, seu porco?" Um professor de certa idade que segue diariamente a pé comentou calmamente com alguns estudantes, que não conhecia mas que seguiam atrás dele, que o vocabulário que estes utilizavam o esmorecia e não valorizava a sua diária tentativa de os educar. Recebeu o olhar escandalizado acima citado e foi presenteado com o dicionário completo ao longo do percurso, entre epítetos de ave rara dinossáurica e pobretanas que anda de transportes públicos. Uns miuditos, por sinal muito fofos, meus alunos de 7º há dois anos atrás, disseram-me uma vez que "uma cena muita gira é passar com as bicicletas por cima dos pés dos velhotes que estão nos bancos do jardim". Atenção que o fofos não foi irónico, os putos eram porreiros. Pois bem, Educação Cívica para quê? Eis uma disciplina obsoleta cujos frutos estão à vista. O exemplo é a melhor escola e esse, infelizmente, escasseia. Quanto a preservar a natureza, a chamada educação ambiental, "Como disse?! Só os otários é que não usam o automóvel e lá em casa não se faz reciclagem nem se apanham os cocós do Bobi. Além disso é giro ver os automobilistas que param na passadeira, quando nós passamos sem o semáforo estar verde para os peões, descarregarem a sua bílis nos professores que estão à porta a fumar e chamarem-lhes nomes feios, eh, eh! Se for o prof que me deu negativa, espero mesmo que seja o meu pai a insultá-lo."
Os jovens seguem os modelos e estes estão à vista. São empregados do comércio que, após esperarmos pacientemente na fila para beber o café enquanto eles conversam entre si e põem a louça na máquina e limpam as migalhas da torrada, nos interpelam com um seco "diga" e, se não perceberem que queremos uma meia de leite de descafeinado, nos retorquem "hãããm?" São polícias que nos multam porque não temos o papel da inspecção automóvel, mesmo quando estão a olhar para o dístico correspondente no vidro do carro, ou porque a luz do farol da esquerda é mais ténue do que a do farol da direita, mas que se montam na motoreta e alegam ter o leite ao lume quando lhes dizemos que está uma senhora a ser assaltada no multibanco da esquina. São políticos que têm as suas caras diariamente escarrapachadas nos tablóides por estarem associados a maningâncias e actos ilícitos. São padres que se sucumbem à pedófila tentação, mulheres e crianças que sofrem maus tratos domésticos, velhos que apodrecem em asilos, parasitas que optam por se apropriar do alheio, deprimidos que põem fim à existência, médicos que não assumem actos de negligência, advogados que se deixam subornar, emigrantes que prevaricam e chamam discriminação ao castigo inerente, homossexuais e doentes com HIV que continuam, de facto, a ser discriminados, quanto mais não seja no íntimo da maioria, crianças que esperam nos orfanatos enquanto casais se esfalfam durante anos para poderem adoptá-los, várias pseudo-instituições de apoio social que engordam orçamentos à custa da credulidade alheia, blá, blá, blá... E findo o prazo de validade estaremos todos num sítio frio e solitário a ser comidos pelos bichos ou iremos churrascar no forno e fertilizar a terra. Alguém pensa nisso? Só é blá, blá, blá porque toda a gente encolhe os ombros e encara tudo isto como normal, ou como conversa para boi dormir, lamechas e fora de prazo, ou como democratização dos costumes, ou como sinal dos tempos, ou como a realidade incontornável com a qual temos que viver e, se formos espertos, compactuar.
O padre António Vieira no Sermão de Sto. António aos Peixes disse, em pleno século XVII, "Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens". Tristemente contemporâneas estas palavras no século XXI, o século de todos os progressos, de todos os avanços científicos e tecnológicos, de todas as possibilidades em aberto. O século em que se rejuvenescem caras e corpos à espera da imortalidade enquanto diariamente morrem milhões de seres de fome, em que os que se divertem ganham pipas de massa e os que se esfalfam pagam as contas e os juros dos empréstimos, em que se ligam vegetais a máquinas durante anos enquanto seres vivos que mexem não recebem tratamento médico adequado, em que alguns coleccionam bens fabulosos e outros catam lixo, em que a aparência e o poder roubaram o protagonismo à inteligência e à competência.
Pequeno parênteses de quem muda de canal à sexta à noite e acaba a desabafar na Net: ainda assim, há coisas que nos alentam, como o "Do you think you can dance?", onde as coreografias são fabulosas e os bailarinos exímios, o que brilhantemente ilustra, por comparação, o terrível amadorismo da maioria dos concursos portugueses, onde uns tristes saltam para a ribalta com ar de crianças da primária no recital da escolinha e recebem elogios rasgados dos júris amestrados, que querem é tacho e audiências e sabem que os portugueses reagem muito mal às críticas, mesmo quando estas se destinam apenas a ajudá-los a melhorar ou a privá-los de fazer figuras de urso. Irra, é raro eu querer ser norte-americana, mas que eles levam estas coisas a sério e que são incríveis profissionais que realmente ensinam pessoas com potencial a serem fantásticas, é inegável.
As minhas desculpas pela negrura, pelo pessimismo desalentado, pela rabugice, mas é Natal, deu-me para isto. E é Natal para quantos de nós afinal? Dizem que é a altura certa para pensar nisso e eu, sem qualquer hipocrisia nem artificialismos, bem à minha maneira, pensei.

Merry Christmas

Não conhecia este sítio e achei prático e útil, pois dá-nos sugestões sobre como fazer o que quer que seja visualizando os diferentes vídeos.
Em consonância com a época, fica a hipótese de decorar a árvore de Natal de forma diferente, segundo o autor do feito, contemporânea. Eu gostei. Só questiono o facto da árvore ser verdadeira, o que é uma grande maldade se não for posteriormente replantada.



Christmas Decorations:
How To Decorate A Contemporary Christmas Tree


Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

Body Art














Kim Joon nasceu em 1966 em Seul, na Coreia, e tem formação superior na área da pintura. É detentor de um currículo excepcional e deve zelar bastante pela sua intimidade, pois aparentemente nada mais se consegue saber sobre este indivíduo.
Numa época em que as tatuagens estão in, Kim usa a totalidade dos corpos e cria padrões e texturas de extrema beleza e criatividade. Inspira-se na publicidade, em desenhos de conceituados estilistas, em personagens de filmes ou na arte oriental e produz autênticas telas humanas. Presumo que os seus modelos tenham dificuldade em despir-se com água e sabão das personagens que encarnam.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Igor Siwanowicz









Fotógrafo da National Geographic, este polaco dedica-se particularmente aos insectos, área em que é considerado o mestre da actualidade.
Fica aqui a sugestão, pois vale a pena explorar o enorme manancial de excelentes fotografias deste indivíduo.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Criatividade













Petar Pavlov é um designer oriundo da Macedónia que nos surpreende visualmente com imagens que interagem com palavras, ilustrando-as. A publicidade da Coca-Cola, um dos clientes para quem trabalha em concomitância com a Fanta e a Bacardi na McCann Erickson, constitui uma excepção, mas o facto de se distinguir do que usualmente é feito para promover o produto torna-a apelativa.
Acho curioso que o seu apelido seja Pavlov. É que salivei ao deparar-me com o Sweet, à semelhança do cão que o célebre Nobel da Medicina, Ivan Petrovich Pavlov, utilizou nas suas experiências. Entretanto, as descobertas deste último abriram caminho para o desenvolvimento da psicologia comportamental e mostraram ter ampla aplicação prática, nomeadamente no campo da publicidade. Em suma, há coincidências interessantes.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Naked Lunch (ou Festim Nu)


???


Will Fordyce

Philip Fusco


Marcelino


(tão novinho que ele era!)


Jonathan Rhys Meyers


Hugh Feist

Chad White


Atilio la Madrid



Rishi Idnani




Tyson Beckford

fotógrafo Jorg Riethausen

fotógrafo Pat Lee

Há já algum tempo atrás, quando postei a Femina, lamentei aqui a escassez de fotografias masculinas que encham o olho e questionei-me quanto ao motivo. Bom, é simples: a pesquisa dá mais trabalho e nunca me tinha debruçado por aí além sobre esta matéria, mas afinal eles andam por aí. Como não partilho minimamente a ideia de que o corpo feminino seja mais belo ou mais estético do que o corpo masculino e como a lua cheia me provoca divagações inusitadas, eis algumas imagens que lavam os olhos.
É certo que há mais procura de beleza ou de nudez por parte dos homens e que a objectualização das mulheres se tornou recorrente, em particular pela proliferação de publicações desta índole. Não sei se é apenas uma questão cultural ou se os homens são realmente mais fetichistas, mas constato que mesmo no universo gay masculino abundam imagens de nudez, o que pode sustentar esta tese. Porém, de uma coisa estou certa: as mulheres também apreciam belas imagens de homens, apesar da maioria não o admitir abertamente, talvez por preconceito cultural. Mas como eu tenho umas quantas costelas masculinas, aqui fica um pequeno tributo à beleza carnal para mulher apreciar. Além deles serem muuuuito bons, as fotos também têm qualidade, o que é sempre uma mais valia.
Não sendo apreciadora do exibicionismo nem do despudor desmesurado, não consigo, ainda assim, perceber os tabus relativos à nudez. Afinal nascemos todos em pêlo, andar nu é extremamente libertador e um corpo bonito é um festim para os sentidos.
São raras as imagens, mesmo as intituladas de nu artístico, que fogem ao cliché e à vulgaridade, mas encontram-se. Pat Lee, jovem de origem tailandesa radicado nos E.U., tem um grande manancial de fotos masculinas, assim como Scott Hoover, fotógrafo de Los Angeles, e a maioria delas até nem são nada más, apesar do excesso de músculos de muitas das criaturas e da exagerada paneleirice. Já Jorg Riethausen, um indivíduo alemão, tem fotos de muita qualidade, como a que aqui figura, mas a maioria são de mulheres. Já era altura de surgirem grandes fotógrafas que explorassem as imagens dos homens dum prisma feminino, para equilibrar a balança. Ora aí está uma daquelas profissões que levam uma pessoa a questionar-se "O quê? E ainda lhe pagam bem para isto?"


Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Idiossincrasias



Vi estas imagens por aí num artigo sobre nomes infelizes para carros e, apesar de adorar automóveis, o meu cérebro divergiu logo para outras paragens. Pensei nas múltiplas mulheres que me têm atormentado há largo tempo a esta parte, uma das quais todos os que me conhecem ou que me lêem aqui facilmente imaginarão quem seja.
Ainda não fui porcinada desta feita, o que é um motivo bem válido para me sentir feliz, mas estou tão frustrada com a perspectiva de um fim-de-semana de trabalho árduo de correcção de testes (em pleno Halloween, que diabos!) e de preparação de aulas, que não resisti à vontade de descarregar a minha raiva de forma vernacular, ainda que contextualizada e subtil, como convém. Preferia, contudo, estar a partilhar algo mais criativo ou interessante ou inovador ou, pelo menos, minimamente inspirado, mas não há qualquer hipótese de fazê-lo por escassez temporal, portanto deixo só o desabafo que não consigo abafar.
Já agora, para quando um bólide The Vagina, La Vache, La Cabra ou afim? E ainda há quem duvide que o imaginário masculino está incontornavelmente povoado pelo universo feminino. Basta lembrar que até a garrafa da Coca-Cola foi inspirada nas curvas da Mae West.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Porca miséria!


Eu bem resisti o mais que me foi possível à incontornável histeria da gripe A, mas hoje, ao fim da tarde, comecei a fantasmar com a coisa. Como qualquer comum mortal que aspira, senão à imortalidade, pelo menos a mais umas décadas neste mundo, confesso-me, digamos, que inquieta.
Saí do trabalho ao fim do dia, por sinal animada, e passei no cafezito da senhora búlgara em busca de um daqueles rectângulos de cartão que me atacam o orçamento e fazem ameaças que não cumprem, como causar-me impotência. Esta comentou o calor inusitado para a época e eu até pensei que, mau grado a nacionalidade, a conversa do tempo é mesmo um tapa-furos universal. Entretanto dei-me conta que vestia manga curta às sete desta tarde de final de Outubro e que o meu corpo estava húmido e peganhento, por isso retorqui-lhe que um dia destes ainda viramos um país tropical, passamos o ano inteiro na praia e enriquecemos com o turismo. Dito isto, fui atacar heroicamente o trânsito, o que em mim consiste em virar para qualquer lado sempre que me aparece uma fila de carros à frente, e cheguei finalmente à toca, já a fazer grandes planos para o serão.
E eis senão quando, assim de mansinho, chegou-me um arrepio e outro e outro, et voilà, arrepiei-me de medo. Contrariamente à maioria, a minha tendência perante quaisquer sintomas de doença é entrar em negação, portanto fechei as janelas e vesti uma sweatshirt. Achei que o frio se fosse, mas às tantas estava era a passear um olhar guloso pela lareira. Percebi então que o melhor era parar para reflectir sobre a coisa. Hum, ora bem, corpo molezito e dorido, 37.3 de temperatura segundo um aparelhómetro que nunca apita mais do que 36.5 quando tudo está em ordem, e uma sensação algodoada de bom vinho tinto. Pior dos sintomas, fora-se a vontade de jantar, quando há uma hora atrás me imaginava num bom restaurante em boa companhia. Menos mal que o cérebro continuava a funcionar, recordando-me então que duas colegas minhas entraram hoje oficialmente de quarentena e que mais de duas dezenas de alunos já estão de molho. Ora bolas, isto não é animador.
Passo seguinte, Google, pela primeirinha vez, juro! E aqui é que a coisa descamba mesmo. Há milhares de entradas sobre a gripe A, vista de todos os prismas possíveis e imaginários e por todo o tipo de entidades e pessoas, há mesmo coisas francamente assustadoras mas, quanto a procedimentos e medicamentos, muito pouco. Eficácia assegurada então, zero por cento. Hora de optar pelo tradicional, não o "avinha-te, abifa-te e abafa-te", mas o sumo de laranja natural, a sopinha, o chá quente e o antigripe. A ver vamos.
Pois bem, não é a gripe que me assusta, já que quase todos os anos apanho uma valente apesar de ser saudável. Ou é porque saio à noite em corpinho bem feito, transpiro na pista e venho secar na rua, ou é porque estou rodeada por dezenas de alunos que me espirram e me tossem os bicharocos, ou é porque não resisto a um belo banho de mar em Fevereiro, enfim, nunca me safo. Pelo menos deixo de fumar durante uns dias, com os brônquios a atacar-me a consciência peitoral e a chamar-me nomes feios, e fico a ranhosar preguiçosamente na chaise-longue com filmes e livros. Se bem que no ano passado foi diferente e até dei aulas com 39 de febre, pois tenho uma invulgar resistência à mesma, só para provar à senhora Lurdes que sou das que verga mas não quebra. É estúpido, mas deu-me um gozo bestial e safei-me à pneumonia, rija que sou mesmo maleitosa. Claro que semeei o pânico à minha volta, senti o que é ser leproso ou algo similar e constatei que o amor à pele é superior ao sentido de humor na minha classe profissional.
Mas agora é diferente, não há como contornar. Os media conseguiram agigantar a coisa de tal maneira que assusta. São as comparações com a gripe espanhola de 1918, as incertezas quanto às vacinas, o exagero do contágio e da propagação do vírus, a ausência de cura eficaz, o amontoado de mortos nos quatro cantos do globo, as teorias da conspiração mirabolantes de gente que quer dominar o mundo adoecendo-nos a todos, enfim, é quase um filme dantesco. E são, acima de tudo pois eu cá sou pragmática, os testemunhos de quem espera horas no hospital e sai de de lá com receitinha de Benuron e ordens para estar sete dias em isolamento. Se tiver direito a bónus adicional, até traz à boleia mais uns quantos vírus que por lá saltitam.
Safa! Palavra de honra que já me sinto quase em forma outra vez. Vou mas é tomar um banho bem quente, ponho mais uma mantita na cama para suar a maleita, durmo as saudáveis oito horas da praxe que nem uma pedra, amanheço em cima da BTT a respirar o ar das árvores e de certeza que desta ainda consigo passar uma rasteira ao H1N1. Em último recurso, há sempre o escafandro. Os estilistas de vanguarda iam delirar, aposto.


(imagem de Alessandro Pautasso)

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Fotos de Sintra e de Lisboa


Palácio da Vila

Palácio da Pena


Quinta da Regaleira

estrada típica de Sintra

Vista parcial de Lisboa

Ponte sobre o Tejo

Cristo Rei

Vista parcial da Baixa

ruínas do Convento do Carmo


gare do Rossio

Terreiro do Paço /Arco do Triunfo de Lisboa


Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República


Praça do Império, Mosteiro dos Jerónimos

Torre de Belém

Docas, zona de diversão




Ponte Vasco da Gama



Parque das Nações


Oceanário



imagens do Parque das Nações

Isto é apenas uma ínfima parte daquilo que poderia ter sido mostrado pela senhora de que atrás se fala, a tal que só queria brincar um pouco. Pena não ter querido também partilhar este espólio com os seus compatriotas, pois tê-los-ia poupado ao triste espectáculo da sua triste figura e enriquecido a sua cultura geral. Claro que, se mostrasse as imagens dos locais que ridicularizava, o seu discurso teria sido ainda mais disparatado, visto que estas a desmentiriam.
Para quem não conheça Sintra ou Lisboa ou os Jerónimos, aqui fica um pouco da vilazinha, do mosteirito que mereceu a cuspidelita e mais umas coisitas que provam como realmente somos esquisitos. E tão pobrezinhos, que nem temos um técnico informático num hotel de cinco estrelas. Assim como também não temos veterinários para cães de estimação, imagine-se! Mas temos, sem dúvida, uma bela capital com excelentes hotéis.


(imagens retiradas aleatoriamente da Net)


Domingo, Outubro 18, 2009

Saia Justa vs Vista Curta


Os Pastéis do Nosso Orgulho ou O Último Reduto do Achincalho

Volvidos dois anos, os portugueses finalmente descobriram que os brasileiros, personificados numa conhecida actriz das telenovelas que muitos deles vorazmente consomem e com as quais se anestesiam e estupidificam o cérebro, gostam de troçar deles. O milagre operou-se graças à divulgação do, agora famoso, episódio do programa Saia Justa. E a casa veio abaixo! Esfacelar o orgulho luso, principalmente quando se é tratado como irmão, cai mal. Se fossem os franceses, reconhecidos chauvinistas e pouco amantes das lusas gentes, a coisa passaria de pantufas. Se fossem os ingleses, até rejubilávamos. Afinal têm que se vingar das sucessivas tareias futebolísticas que lhes vimos dando, de não se terem apropriado do vinho do Porto ou de não conseguirem arrebanhar o Fernando Pessoa para o seu espólio de escritores. Se fossem os espanhóis, a nossa ancestral rivalidade já nos imunizou destas habituais picardias mútuas. Além de que dificilmente nos batem na má língua. Agora uma série de actrizes brasileiras num conhecido programa de entretenimento foi uma forte bordoada nas gentes. E então? Satirizar o próximo faz parte do imaginário colectivo, principalmente em se tratando do nosso colonizador. Além de que nós temos aqui muito por onde ceifar, se for essa a intenção. Finalmente, a capacidade de encaixe é sinónimo de superioridade, pelo que as virulentas reacções ocorridas nos últimos dias só inferiorizam aqueles que as protagonizam.
Mas percebe-se a histeria colectiva. Cheira a coisa de mal amados toda esta fita com honras de noticiário das oito, daqueles que se entregam ingenuamente e não aguentam uma traição. De facto, os artistas brasileiros são aqui tratados a Pão de Ló. Esta senhora, em particular, sempre foi muito acarinhada pela opinião pública, arranjou trabalho em Portugal quando andou na mó de baixo e até por cá lançou há tempos um livro com honras de escritora. Vamos convir que esta sua atitude é do tipo "cuspir na sopa e bater na avó", com a diferença de que ela cospe na fonte e bate em vários avós.

Ainda assim, não me sinto solidária com os meus compatriotas enfurecidos. Acredito até que o pedido de desculpa da actriz seja sincero e que a sua ideia tenha sido, de facto, brincar com as fraquezas dos tugas. O problema não é esse, visto que tal é legítimo e até pode ser divertido. O genuíno mal de tudo isto é que a senhora em questão não tem nem inteligência, nem subtileza de espírito para ironizar, nem cultura, nem piada absolutamente nenhuma, que afinal parece que era só o que ela queria ter, tendo em conta a sua justificação. Por isso, vamos a factos. Sintra não é uma vilazinha, é sim, segundo a UNESCO, Património Mundial desde 1995, visto ser um local paradisíaco e recheado de monumentos. Tanto espólio natural e cultural para mostrar ao mundo e somos brindados com um três ao contrário. Incrível! Até porque cada um em sua casa é rei e se quer espetar a placa invertida na porta, está no seu direito. Desde que as cartas não se comecem a tresmalhar por ingenuidade do carteiro (aquele que toca sempre duas vezes e não três) menos mal. Três são afinal, com muita sorte, os neurónios que povoam o cérebro da dita cuja senhora. Segue-se a história dos pastéis de Belém, deliciosos por sinal e que escaparam por milagre ao serrote, sendo que o local em que se vendem é particularmente emblemático de uma tradição de cafés que se perderam no tempo deixando saudade, visto que data de 1837, mas o espaço não é mostrado, mais uma vez. Não acredito sequer que a pobre criatura tenha enfardado quatro dos ditos, pois estes são altamente calóricos e ela só quer ter pele e ossos. Mas a ser verdade, e principalmente se estavam quentinhos, aposto que a caganeira foi valente! Depois temos a confusão do rio Tejo com o mar e a ilação de que estamos num país onde os rios também vão dar ao mar. Quem diria! Já agora, também estamos num local em que os comuns mortais não confundem rios com mar quando não são ceguinhos, mas enfim, como a senhora diz, nós somos muito esquisitos, pois então! Entretanto, em pleno Mosteiro dos Jerónimos, obra de arte manuelina de tempos de maior desafogo graças aos Descobrimentos, a criatura decide cuspir na fonte. Bom, eu sou loura, não percebi. Tem graça cuspir? As pessoas riem-se à brava quando alguém cospe, ainda por cima de forma tão desmilinguida e foleira? Bom, se queria cuspir em nós de forma ofensiva, então devia tê-lo feito à portuguesa e mandado uma valente escarreta verde e amarela com todo o vigor, em vez de arrepanhar a cara plastificada e verter a custo um liquidozito insípido. Já o Salazar esteve quarenta e um anos no poder, mas enfim, o que são umas dezenas de anos a menos, pois então. Deve ser o mesmo raciocínio matemático utilizado pela senhora quando lhe perguntam a idade. Quanto à parte do técnico informático, já nem me pronuncio. A única coisa que me ocorreria, se fosse uma digna brasileira que trabalha diariamente no duro, era questionar-me quanto à legitimidade de tal personagem merecer estar num hotel de cinco estrelas por fazer figuras de ursa e dizer patacoadas na televisão. Perante tal festival de mediocridade, ocorre-me mesmo é perguntar: "Andas a dar em que drogas minha?!" Chiça! É certo que também não faltam por cá tontos a ganhar dinheiro por fazer similares figuras de urso em programas de entretenimento, mas ao menos não resolvem canalizar a sua acefalia para o ataque a outros povos, em particular aqueles que albergam actualmente uns milhares de conterrâneos seus à procura de melhor sorte. Imagine-se que os portugueses se enfezavam de grande com os brasileiros e decidiam retaliar nos emigrantes? Que lindo serviço! Mas é claro que tais pensamentos não ocorreram a esta fantástica brincalhona. Certamente nem brasileiros viu em Lisboa, já que parece não ver a ponta dum corno à frente do nariz. Gostei muito foi do seu pedido de desculpas, naquela voz altamente lamechas e deslavada de menina fora de prazo, que é a sua: "Foi uma brincadeira caseira feita com um amigo. A gente brinca com a falta de formação académica do nosso Presidente, a gente brinca com a própria tragédia. Eu brinco com a minha própria mãe e com a minha filha. A gente brinca com aquilo pelo qual a gente tem afecto."
Comentários que se impõem: o verbo brincar tem as costas largas, já que pelos vistos inclui troçar, inferiorizar, achincalhar; brincadeiras caseiras não saltam para a televisão nacional via GNT; o nosso Primeiro-Ministro também tem uma formação académica altamente brincável; brincar com a própria tragédia é o que nós fazemos todos os dias; apelar à família é o recurso pobre e derradeiro de quem não tem quaisquer argumentos válidos para apresentar; usar a sintaxe com propriedade é o que compete a quem se dirige a mais de dez milhões de indivíduos que partilham a mesma língua, sendo que "aquilo pelo qual a gente tem afecto" é um violento pontapé na gramática, em particular para quem publica livros. Mas também temos por cá desses fenómenos em abundância, pois as prateleiras das livrarias estão entulhadas com o lixo de indivíduos que escrevem e que, pasme-se, até vendem, mesmo não sendo escritores. O truque é ser conhecido e escrever na primeira pessoa, já que poucos resistem a uma espreitadela por baixo das saias alheias.
Em suma, constata-se que é mais o que nos une do que o que nos separa, como tal, para quê tanta estupidez gratuita? Imagino só como se sente agora a senhora depois de ter andado enrolada com um dos tais portugueses esquisitos no qual havia cuspido uns tempos antes. Mais curiosidade tenho ainda em saber como se sentirá o dito senhor, um poço de impáfia, sabedoria e altivez, de língua bem viperina, ao perceber que toda a gente teve oportunidade de constatar em quão turvas e acéfalas águas se banha. Aposto que o seu orgulho também está tão esfacelado que até sangra. Só me apraz mesmo dizer: que rica telenovela versão reality-show!

Ainda assim, creio que as mais importantes ilações a tirar são as seguintes: uma andorinha não faz a Primavera e as pessoas não devem misturar alhos com bugalhos. Máximas populares à parte, a opinião tonta de uma galinácea e do seu séquito de galinholas vale o que vale, pois o Brasil esteve e está povoado de múltiplos indivíduos que merecem em absoluto a nossa admiração, pelas mais variadas razões. Além de que as relações entre dois povos irmãos não devem ser abaladas por episódios promíscuos e insignificantes desta índole. E, já agora, seria profícuo que os portugueses se preocupassem com o real e perdessem a mania de se masturbar psicologicamente com romances de cordel.

(imagem dos Pastéis de Belém)

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Rescaldo eleitoral

Admito, com bastante pesar, que cada vez menos me regozijo com quaisquer vitórias ou derrotas de partidos ou de líderes políticos, visto que o ancestral e famigerado pessimismo português acabou por também me contagiar.
Ao fim de mais de três décadas em que dois partidos foram disputando e conquistando a liderança sem que nada de verdadeiramente positivo, inovador ou lucrativo se verificasse, desejava agora poder vislumbrar alternativas consentâneas com as nossas reais necessidades
e actuações credíveis e eficazes. Acima de tudo, gostava de voltar a acreditar na integridade e competência de um qualquer líder político, o que nunca me aconteceu na idade adulta.
Tinha duas tranças gordas e sardas no nariz quando os meus pais choraram a morte de Francisco Sá Carneiro, que mitifiquei como o D. Sebastião da era moderna. De então para cá, quanto mais penetro nos meandros da política nacional, mais defraudada me sinto. Ocorre-me mesmo perguntar: para quando a importação de políticos à altura do buraco em que não paramos de nos afundar? Entretanto, uma das coisas que mais me chocou foi ter finalmente constatado que a política e o futebol têm muito mais em comum do que seria de esperar. Senão vejamos: os políticos mudam de partido ou transformam-se pomposamente em independentes consoante os seus interesses e os benefícios que tal lhes acarreta; as multidões entram em delírio pelas vitórias dos seus partidos ou dos seus líderes e andam à batatada quando a coisa dá para o torto; os políticos prostituem-se durante as campanhas para arrebanhar as massas e nem a gripe A os demove de beijar e abraçar as turbas delirantes (imagino o quanto gastaram este ano nos mais variados e potentes desinfectantes!); os humoristas tiram partido do circo que se instala e copiam modelos televisivos já batidos noutros países para se auto-promoverem e facturarem dinherinho e audiências, contando com a adesão dos palhacinhos que encontram margem de manobra para a campanha gratuita junto dos que já não movem o traseiro para sair à rua em explosões de histeria colectiva; o dinheiro corre a rodos e escoa-se em ralos invisíveis e duvidosos, esquecendo aqueles que apelam à nossa contenção o que estas quantias poderiam fazer em prol da tão famigerada e aludida crise (campanhas e idas às urnas a duplicar num tão curto espaço de tempo é surreal!); e quando chega a hora da verdade, a única coisa que vemos são indivíduos a congratular-se da vitória, a inventar a vitória, a obviar a derrota com argumentos falaciosos, a antever as próximas vitórias. Irra! Mas a vitória de quem e do quê, num país que não pára de se atolar? (Lembra aquela música "Ai Portugal está podre de rico/ Ai compra tudo até sarro de penico") O meu clube é melhor do que o teu? O meu dirigente ganhou e o teu perdeu? Ora bolas pró pagode! O circo romano era mais genuíno e os déspotas sequiosos de poder não vestiam a pele de cordeiros.
Não vislumbro, infelizmente, nenhuma luz ao fundo do túnel. Se não respeitasse aquilo que acredito ser um direito e um dever cívico de todos nós, não daria dois passos para introduzir a medo o meu boletim de voto na urna. E assisto à noite eleitoral para me irritar de grande e ficar ainda mais triste e desalentada e com menos vontade de arregaçar as mangas e dar o meu contributo para o benefício colectivo comparecendo no meu local de trabalho.
Houve apenas alguns momentos fugazes a contrariar o meu desânimo na noite passada: a derrota de Fátima Plastificada no Brasil Graças ao Saco Azul Felgueiras e de Paulo Casa Pia Esquecida Pedófilo Pedroso, este último apoiado por Jorge Sampaio e atacado por uns senhores com muito sentido de humor que preconizavam a sua castração química; a derrota de Pedro Sanguessuga Lopes, também conhecido a partir de ontem por Vaivém Espacial graças às suas aflitas peregrinações de cá para lá e de lá para cá enquanto prometia ir a Fátima de joelhos se o milagre das freguesias por apurar lhe valesse; a derrota de Paulo Catherine Deneuve Portas, o senhor que insuflou nas legislativas e que, apesar de ter feito alianças com Deus e com o Diabo, acabou por só conquistar uma câmara, o que ainda assim não lhe retirou fôlego para se vangloriar do seu partido ter subido um por cento nestas autárquicas! Em suma, consolei-me com o mal, pois não vislumbrei nada de bom.

Não resistindo a puxar a brasa à minha sardinha, houve apenas um indivíduo cujo discurso na noite das legislativas me trouxe um sorriso rasgado aos lábios, apesar de não estar aqui a fazer a sua apologia e de acreditar que, enquanto mestre da mesma arte, este não poderia ficar indiferente ao sucedido. Foi aquele que disse: "Esta noite, Maria de Lurdes Rodrigues perdeu. Dou os parabéns aos professores, que ganharam em nome da Educação." Que as palavras de Francisco Louçã sejam proféticas é o que eu desejo, pois com a Sra. Sinistra no comando será difícil continuar a ter alento. E desejo igualmente que o Sr. José Pinóquio Sócrates mantenha a sua palavra e cumpra a promessa, que hoje fez aos portugueses, de que a sua actuação política será mais dialogante. Repare-se que apenas Paulo Portas, o mago das alianças, concedeu a extraordinária vitória nas autárquicas aos socialistas.
Parafraseando "o sexo e a Cidália", só me ocorre este último pensamento: Oh God, make me good, but not yet!

(imagem de Alessandro Pautasso)

Sábado, Setembro 05, 2009

Mudam as moscas (ou nem por isso)


Há seres verdadeiramente incríveis!
Num país em que o caso da Casa Pia se arrasta ad aeternum a expensas do erário público visando cair no almejado esquecimento, em que as Fátimas Felgueiras voltam alegremente plastificadas do Brasil graças aos sacos azuis e passeiam agora para a comunicação social ao lado do primeiro-ministro aguardando a vitória nas próximas autárquicas, em que os Isaltinos Morais são condenados mas esperam voltar a assumir o comando, comendo queijo Limiano, para desviar mais uns milhares para as contas dos sobrinhos, em que os incendiários vão devastando impunemente os recursos florestais que se impõe preservar, em que cidadãos que vão tratar dos olhos saem cegos do hospital, em que os cães continuam a cagar nos passeios ou onde melhor lhes aprouver, em que os políticos das diferentes facções fazem pseudo-debates com luvas de pelica e esquecem os knockout da praxe em prol de possíveis alianças que lhes venham a ser favoráveis, em que há Braga Parques e Motas e Engil a mexer cordelinhos invisíveis que lhes rendem milhões de euros chorados por todos nós, em que a Selecção das Quinas parece ter quinado de vez, apesar do seu professor doutor treinador
insistir até à exaustão no prolífico verbo ganhar (Cruzes!!! E o senhor nem sequer é do tempo das novas oportunidades para ter o desconto inerente), afigura-se quase impossível que algo mais nos consiga surpreender. E atenção que pluralizo, demarcando-me ainda assim veementemente do incontornável e secular marasmo abúlico dos portugueses amantes de telenovelas, de Tardes da Júlia, de Preços Certos, de mulheres semi-nuas que anunciam prémios telefónicos pela noite dentro e de outros tantos laxantes afins que propiciam a diarreia mental. Por mim até substituiria a dita senhora que os espanhóis mandaram pastar por ser demasiado desbocada (o que, convenhamos, é absolutamente consentâneo com a dimensão da dita boca) e distribuiria traulitada de criar bicho para a direita e para a esquerda - que ainda consigo diferenciar desde que o tema não seja a política - como nos bons velhos tempos em que a comunicação social não se tinha prostituído tão descaradamente.
Mas voltando à vaca fria, há seres verdadeiramente espantosos, que conseguem até convencer os mais incautos que canibais que comam de faca e garfo são indivíduos civilizados. São seres que enfiam a fénix renascida num chinelo e que possuem um fôlego superior ao de Carl Lewis. São os Santana Lopes deste mundo, que dão entrevistas em traje de escapar para a Kapital logo que a seca termine, utilizando neologismos tão brilhantes como " Acho uma idioteira..." e ostentando como ex libris de campanha continuar o trabalho no Parque Mayer (a Kapital está uma sequeira senhores!). Irra! Que lateira! Já sabemos que o homem vive às custas do Estado, que não tem onde cair morto e que mandou construir um túnel cujo real motivo de espanto é ter de ser atravessado a 50 km por hora. Também sabemos que o Mourinho chegou para ele e que o seu célebre ataque de ciumeira lhe deu mais mediatismo do que os seus desempenhos políticos. Sabemos ainda que a sua campanha se intitula "Lisboa Com Sentido", presumo que um sentido único, o do seu proveito próprio. Mas um tipo que foi afastado por um Presidente da República, assaz conhecido pela sua inércia, por não ter nem perfil, nem competência, nem qualquer base de sustentação credível para desempenhar o cargo de primeiro-ministro, voltar sempre a querer tão airosamente desencavar uma fonte de rendimento à custa do contribuinte é atroz! Quando não houver mais nenhum cargo a que concorrer, a criatura inventa-o!
Em suma, há quantos anos não aparece um político digno desse nome? O que temos tido nas últimas décadas? O que nos diferencia de 1916, ano em que Almada Negreiros afirmou que
"UMA GERAÇÃO QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO! (...)

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS AO LEME É UMA CANÔA EM SECO!

O DANTAS É UM CIGANO!

O DANTAS É MEIO CIGANO!"

Só não sei se estes Dantas nus são horrorosos ou se cheiram mal da boca, mas também não quero verificar. Alastrando à contemporaneidade, acrescentaria só que "Dar dinheiro ao Dantas é tão mau como pedi-lo à Cofidis!", visto que os juros e as penalizações são, em ambos os casos, exorbitantes. E é isso que quase todos fazemos, alimentamos os parasitários Dantas que se arvoram em condutores dos destinos da nação. Por isso é que a queda continua a pique! Só queria mesmo é que mandássemos pastar os Dantas de uma vez por todas, pois enquanto indivíduos como eles existirem, persistirem e subsistirem no cenário político não há quem endireite esta traquitana. E se eles são portugueses, eu também prefiro ser espanhola! Por muito que me custe abdicar de um direito democrático que, e em particular no caso das mulheres, foi tão duramente conquistado, começo a acreditar que a única forma de fazer ver aos nossos políticos que eles são uns palhaços oportunistas e incompetentes era ninguém comparecer nas urnas. Rigorosamente ninguém! Se nos abstemos é porque fomos para a praia ou porque ficámos em casa a coçar a micose. Se o voto é branco ou nulo é porque somos ceguinhos ou analfabetos. Pois o que iriam afirmar se ninguém, à excepção deles mesmos para votar em si próprios ou nos seus compinchas, fosse às urnas? Morro de curiosidade e tenho delírios fantásticos com semelhante dia. Urnas cheira a morte! Mas num país eufemístico em que até o fuck dos filmes é substituído por porra, acredito que custe a muitos ter tomates para admitir a realidade ou para chamar os bois pelos nomes. E não será tão cedo que se assumirá que os mesmos têm cornos em vez de chifres, com os quais se entretêm a dar-nos cornadas bestiais. Morra a censura, morra, PUM! E morra a demagogia, morra, PUM, PUM, PUM!

(foto retirada do blogue À Margem da Ria)

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Land Art II

Ainda na esteira da land art, instalação em Tessalónica, na Grécia.
Objectos do quotidiano transformados em arte contribuem para uma dupla reciclagem: a do que já existe e é canalizável para outros fins; a do olhar.

Land Art





E quem pensa que a publicidade já não consegue surpreender, desengane-se!
Em Fevereiro surgiram três gigantescos pianos de madeira na ilha holandesa de Schiermonnikoog, semelhantes a barcos naufragados que deram à costa, no intuito de promover o já famoso festival de música clássica da cidade (que tem o mesmo nome impronunciável da ilha!). Este decorrerá em Outubro e dará especial ênfase aos compositores russos.
Esta instalação não só tem contribuído de forma suave, prazenteira e impoluta para a divulgação do evento pelos quatro cantos do planeta - o que de outra forma nunca sucederia - como também constitui uma bela expressão da land art.
Ocorre-me que poderíamos enriquecer as nossas já tão belas praias com este tipo de arte na paisagem e criar instalações que não servissem só objectivos de índole estética, mas também prática, num estímulo à criatividade e ao lazer dos que delas pudessem usufruir.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Graffiti

A palavra graffiti é italiana, plural de graffito, sendo o nome dado às inscrições feitas em paredes desde o Império Romano. Tornou-se mais contemporaneamente uma forma de arte urbana que aprecio imenso, excepto quando os seus autores confundem poluição visual com expressão plástica ou quando não atinam com a escolha dos locais. Como em outros campos, trata-se de uma questão social e seria muito pertinente, no nosso país, pensar em educar a população nesse sentido.
Nos Estados Unidos, por exemplo, alguém que seja apanhado a pichar uma parede é multado e passa a noite na cadeia. Contudo, há locais que são facultados especialmente para o efeito, podendo cada um dar livre curso à sua imaginação. Recentemente em França, cuja capital começou a ser inundada por tags pouco aprazíveis em edifícios históricos, a Câmara obrigou os indivíduos a eliminar os estragos, facultando-lhes igualmente locais adequados para tal prática. Para quando tais medidas por cá?
Um dos mais célebres grafiteiros foi o artista norte-americano Jean-Michel Basquiat, que se popularizou no final dos anos 70 pelas mensagens poéticas que deixava nos prédios abandonados de Manhattan. Posteriormente foi catalogado como neo-expressionista e foi reconhecido como um dos mais significativos artistas do final do século XX.
Os exemplos que se seguem, oriundos de diferentes locais, foram retirados do site de Banksy, que vale a pena visitar pois contém mais graffitis interessantes, desenhos e filmes. Achei particularmente bem apanhados os de New Orleans, dado o contexto específico da cidade após a passagem do furacão Katrina.
Banksy tem 34 anos e nasceu em Bristol, Inglaterra. Poucos conhecem a sua aparência pois aparece sempre de chapéu, nariz e barba falsos. O museu de Bristol expôs este Verão as suas obras pela primeira vez. A este propósito, Banksy comentou: "Este é o primeiro espectáculo que monto no qual o dinheiro dos contribuintes é utilizado para criar as obras em vez de apagá-las". Este indivíduo, que já colocou clandestinamente obras suas no Louvre, tem uma visão peculiar do real, o que se constata não só nos seus trabalhos, mas também nas suas máximas: "Quando eu era miúdo costumava rezar todas as noites por uma bicicleta. Entretanto percebi que Deus não funciona dessa forma, portanto roubei uma e rezei pelo perdão".






















Sexta-feira, Julho 24, 2009

Maladie artistique


O Dr. Kai-hung Fung, especialista chinês em radiologia, realizou estas tomografias computorizadas em 3D aplicando um arco-íris espectro. Esta técnica permite que estejamos a visualizar, por ordem, a parte inferior de um conjunto de dentes humanos, a superfície de um pulmão e o interior do nariz de uma mulher chinesa doente de trinta e três anos, por inverosímil que pareça.
Quando, em pleno século XXI, a arte se encontra desgastada pela multiplicidade de abordagens, ainda surgem estas surpresas refrescantes, provando que a criatividade é infinda e que a tecnologia é plurifacetada. Esta perspectiva inovadora mostra também que a doença se pode tornar aliada da estética. Presumo que este indivíduo seja suficientemente inovador para adquirir visibilidade. Resta saber se contribui assim tanto para a nossa felicidade, pois eu não me imagino a pôr estas imagens na parede. Descobri-o na rádio Oxigénio, mas tenho mesmo é saudades da XFM. Isso sim, era uma rádio! Até a Voxx e os seus slogans malucos. Saudosista? Não creio. O que é bom não devia acabar.

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

David Cerny e a Entropa

David Cerny nasceu a 15 de Dezembro de 1967 em Praga, na República Checa. Após tanta polémica, sabe bem dar um rosto ao nome e constatar que a sua indumentária não defrauda as nossas melhores expectativas.
Como fiquei curiosa em relação à personagem, achei interessante averiguar. Fiz então uma visita ao seu site e verifiquei que já acumula um espólio considerável, entre esculturas, instalações e projectos. Há uns trabalhos mais inspirados do que outros, mas são quase todos bastante peculiares.
Fiquei particularmente fascinada com estas cabeças de 88/89 realizadas a partir de um retrato de Pavel Marek.












Vamos então ao tema quente, começando por olhar para o nosso umbiguito.

Eis os nossos bifes, que por sinal até já foram bem mais suculentos, com a forma das antigas colónias, uma das peças da controversa e recente instalação Entropa - meio Europa, meio entropia (termo da termodinâmica que faz um conjunto adquirir as qualidades das suas partes). A avaliar pela representação das partes em questão, o todo pode bem ser um susto!
Entretanto cogito se seremos carne para canhão ou um país de bovinos, dada a nossa proverbial passividade.


Esta é a Alemanha, com as suas auto-estradas em forma de suástica. Há fantasmas que, desejo, jamais se esfumarão, estimulando a persistência da memória colectiva e o medo do replay.



Aqui está a peça no seu todo. Entropa, "um puzzle com as melhores qualidades possíveis" de cada país, conforme a descreveu David Cerny no catálogo da exposição, em Bruxelas. Esta peça, como é já do conhecimento geral, foi encomendada pelo Governo Checo, agora que o país detém a presidência do Conselho da União Europeia, estando Cerny encarregue de dinamizar uma exposição colectiva de vinte e sete artistas dos diferentes países europeus.
A parte mais gira disto tudo é mesmo olhar para os bonequinhos, uns mais inspirados do que outros. A Áustria é um prado repleto de centrais nucleares. A Bélgica, uma caixa de chocolates, quiçá para atrair criancinhas. A Bulgária, uma casa de banho com sanita à turca. É bem provável que os búlgaros tenham ficado na merda. A Espanha é um estaleiro de betão, provavelmente devido ao seu notório florescimento económico após a entrada na UE. A Dinamarca são peças de Lego. Já a Estónia são dois canivetes suíços com a foice e o martelo. Percebi que há muito não via este símbolo, outrora tão recorrente. A Finlândia é um estrado de sauna. Que aprazível! E a França, um cartaz que apregoa "Estamos em greve!" Professores portugueses, façam um estágio em terras gaulesas e acabem de vez com esta fantochada! A Grécia é um incêndio. Resta saber o que renascerá das cinzas da nossa mais profícua herança cultural. A Hungria são melancias atómicas (que medo!) e a Irlanda uma gaita de foles. Aqui seria mais pertinente pôr os católicos à bulha com os protestantes. A Itália é um campo de futebol em que os jogadores se masturbam com bolas na virilha. Bom, o futebol é a maior prática actual de masturbação colectiva, acho que não foi bem apanhado. A Letónia é um país plano a murmurar "Se tivéssemos montanhas..." Já a Lituânia defende as suas fronteiras russas mijando-lhes. Que chuva de ouro! A propósito do dito, o Luxemburgo é um pedaço de ouro falso que se prostitui. Entretanto a Holanda foi alagada. Cá está, eu optaria pela pedrada colectiva. A Polónia são montes hasteando a bandeira gay, o que não terá excitado muito os seus católicos habitantes. E por aí fora...
Ora, e de acordo com o que se lê no site de David Cerny, a intenção original era mesmo solicitar a participação efectiva de vinte e sete artistas europeus e engendrar um projecto colectivo. Contudo, devido a constrangimentos monetários e temporais, optou-se pela "criação de artistas fictícios que representam os diferentes estereótipos nacionais e culturais desta Europa unida". Não percebi onde estão os tais artistas fictícios. Na peça? Ou na cabeça de David Cerny, Kristof Kintera e Tomas Pospiszyl, os quais, com a ajuda de uma vasta equipa de colegas da República Checa e do exterior, engendraram toda esta marosca? Eles apresentam então as suas desculpas a ministros e deputados por não lhes terem facultado atempadamente essa informação, afirmando que não pretendiam que estes arcassem com a responsabilidade de toda esta sátira politicamente incorrecta. Mais acrescentam que sabiam que toda a verdade acabaria por vir à superfície (o que nem sempre é evidente nos tempos que correm) e que pretendiam mesmo era descobrir se a Europa possui afinal a capacidade de se rir de si própria. Os meninos traquinas acreditam que "Bruxelas é capaz de uma irónica auto-reflexão" e crêem "no sentido de humor das nações europeias e dos seus representantes". Por certo não conhecem José Sócrates, caso contrário não acreditariam nem nisso, nem em nada!
Entretanto ocorre-me questionar se esta instalação será motivo para tanta polémica ou se as manobras de diversão para desviar as atenções dos problemas reais não continuam a ser um dos melhores recursos político-sociais. Afinal, que a UE não é um mar de rosas estamos carecas de saber. Que a arte é, na sua essência, provocatória e irónica, é um dado adquirido. Que todos os artistas almejam o reconhecimento universal, está implícito no trabalho que desenvolvem. Que a República Checa anda apagadita, já tínhamos reparado. E que Cerny era um ilustre desconhecido que saltou para a ribalta, é mais do que evidente. Bingo! E fim de história.
Para terminar a divagação Cernyana, houve mais dois trabalhos que considerei curiosos e cujas imagens se encontram aqui, no final.
O primeiro é um projecto que nunca se chegou a concretizar, segundo o autor por razões técnicas, e que data de 1996. Destinava-se ao World Trade Center e consistia em colocar o porta-aviões Intrepid, na altura ancorado no rio Hudson, sobre os tectos das torres gémeas de modo a formar a letra grega TT (pi). Dado o trágico incidente que ocorreu em 2001, é caso para pensar se Cerny não será um visionário, pois os aviões teriam aterrado em vez de embater nas torres. Just kiding!
O segundo é uma instalação permanente que se encontra na Galeria Futura, em Praga. Foi realizada em 2003 e mede cinco metros e vinte. Os arrojados trepadores enfiam a cabeça nos respectivos traseiros e visionam um filme em que um velhote enfia comida na boca de uma velhinha ao som de "We Are The Champions" dos Queen. Não sei o que é que o Freddy Mercury gostaria de enfiar no Cerny (talvez umas chapadas, talvez outras coisas, talvez nada) mas, pela parte que me toca, gostei de introduzir mais informação nos neurónios. E simpatizei com o indivíduo.


Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Ilusão de óptica






Ainda na esteira de Magritte e das imagens que brincam com o real ou que o desconstroem, ficam aqui alguns exemplos bem conseguidos da técnica do trompe l'oeil.
Em criança tive um caleidoscópio e um View Master, dois brinquedos que me fascinavam pela possibilidade de me auto-transportar visualmente para uma outra dimensão, colorida e dinâmica, apenas através do olhar. Mais tarde, na adolescência, descobri o mágico e vasto universo da pintura graças a uma enciclopédia de História da Arte que havia lá em casa e aos livros da Taschen. E percebi que havia quem tivesse os meus brinquedos na cabeça e os materializasse em telas fantásticas. E compreendi ainda que o mundo está cheio de beleza: a real, como as paisagens naturais ou as obras do Homem com as quais podemos interagir, e aquela que só nos limitamos a visualizar mas que, ainda assim, nos permite mergulhar em fantásticos universos paralelos. Quando não estamos doentes dos olhos...

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

(e)fabula(ção)


Cascos que ecoam na floresta, em noite de lua cheia, convidando a fugas de verde. Silhuetas naturais que se recortam no horizonte e inusitadamente se sobrepõem, pintando quadros improváveis que aguçam o olhar. Trilhos virgens que se inventam no prazer deambulante da descoberta, ao som de galhos que estalam e pios de corujas noctívagas. Brisa agreste que impregna a roupa de cheiro a limpo e a frescura, gelando as bochechas e a ponta do nariz. Agulhinhas finas de ar puro que se espetam nos pulmões e que revigoram o sangue. Universo onírico, de tão belo e real, despertando todos os sentidos com a força da seiva que corre nas árvores. E uma mão quente que outra aperta docemente, caminho agora iluminado com o brilho líquido da ternura que dos olhos se derrama.
Domingo de paz e deambulação em Sintra, privilégio dos deuses, encantamento aventuroso. Remate feliz do dia de brilho e luz azul, na escarpada Adraga de ondas bravias, com vinho tinto a enrubescer os lábios.


(quadro de René Magritte, Le Blanc Seign, 1965)

Sábado, Janeiro 10, 2009

Cadavre exquis Pessoano


Pensar é estar doente dos olhos. (Contudo) Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. (Não sou um) Cadáver adiado que procria. Sou uma vida baloiçada na consciência de existir. Para ser grande, Sê inteiro, nada teu exagera ou exclui. Quantos Césares fui! Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?


Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

Juan Muñoz


Dois sentados na parede, 2001


Juan Muñoz nasceu em 17 de Junho de 1953 em Madrid e morreu inesperadamente em Agosto de 2001, vítima de ataque cardíaco, com 48 anos de idade.
Frequentou o Curso de Arquitectura em Madrid e, posteriormente, estudou em locais como a Central School of Art em Londres e o Pratt Graphic Centre de Nova Iorque.
No início da década de 70 viajou pela Europa e filmou em Madrid uma curta metragem sobre os monumentos históricos da cidade.
Em suma, pertenceu a uma geração de artistas europeus que muito contribuiu para a expansão da linguagem escultórica nas últimas décadas. Os seus trabalhos integraram inúmeras exposições individuais e colectivas em locais tão conceituados como a Tate Modern Gallery, em Londres, ou o Museu Guggenheim, em Bilbao.
Neste momento, inúmeras esculturas, desenhos e instalações integram a exposição "Juan Muñoz, Uma Retrospectiva" que pode ser visionada no Museu de Serralves, no Porto. Juan expôs várias vezes em Portugal, cruzou-se com diversos artistas portugueses e ofereceu à cidade do Porto as esculturas que se encontram hoje no Jardim da Cordoaria, no seguimento das comemorações da Porto 2001.
Muñoz ganhou o mais conceituado prémio artístico espanhol, o Prémio Nacional de Artes Plásticas, em 2000.
Foi muito bom passar um fim de tarde em Serralves na companhia deste universo onírico e inusitado. Creio que todos os que puderem ir até lá agradecerão a experiência. Só lamento a dificuldade que tive em encontrar as imagens que aqui partilho, bem como a ausência de vários títulos por incúria das fontes a que recorri. No próprio museu estavam esgotados os desdobráveis desta exposição. Porém, quem lhe tomar o gosto, pode pesquisar por sua própria conta e risco.


Nariz partido II




Anão com uma caixa

Figura à escuta, 1991


O ventríloquo a olhar para o duplo interior, 1988–2000


Conversação

Em direcção à sombra

Sara com mesa de bilhar, 1996

Figura presa por um pé


Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Publicidade com neurónios

A prova de que a publicidade não é só poluição visual, lixo a entupir a caixa do correio ou atentado ecológico.
As que surgem aqui constituem um excelente exercício de criatividade e produzem um efeito imediato e impactante.




Campanha contra a exclusão, Cidade do México: "Somebody lives with HIV. Nobody wants to play with him. Be like nobody."


Terapia de choque para condutores sedentos.



Grande lebre! Assim nem eram precisos transportes.


Home sweet home!


Aquando do lançamento do filme dos Simpsons, em Inglaterra.
Homer Simpson, igual a si próprio, no lançamento do Donut.
Haja pontaria!



Esta marca insiste que o seu som é real. E o mau hálito?!


"You eat what you touch"
Prefiro o inverso.



Forte! Muito bom.


Publicidade subliminar no seu melhor.





Humor negro (Eh, eh, mas com dentes!)



A higiene é inimiga do planeta. Urge encontrar alternativas.
Antes badalhocos mas vivos!

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Femina

Peter Adams


Dale Jordan


Alex Kristov


Três visões distintas, e na minha óptica belíssimas, do corpo feminino.
Não vale a pena questionar a minha orientação sexual, quando muito o meu narcisismo enquanto fêmea. E a escassez de imagens similares de corpos masculinos. Pudor absurdo dos machos? Lacuna dos fotógrafos? Falta de aderência do público feminino? Não sei. Se calhar as minhas deambulações é que não têm sido frutíferas...
Acima de tudo, tributo ao árduo percurso das mulheres, cuja travessia na conquista de uma posição igualitária tem sido notável. Parte deste êxito deve-se contudo, e convém ressaltá-lo, ao contributo de tantos homens que fazem jus a essa denominação.
Sinto-me grata por viver no século XXI, apesar de umas quantas arestas que ainda é preciso limar.

Walter Raes

Espreitadela ao irrequieto universo do design

Lord S
ou uma visão pragmática dos cestos de compras


The 1960's Coat Stand
ou como um poste desgrenhado também pode ser útil

Bored Housewife Throne
ou a desnecessidade de comentar o óbvio

Brainstorming invernoso

É fantástico sentir saudades daquilo que nunca se experienciou. Vêm-me desejos súbitos de neve abundante, quando nunca vi tombar do céu mais do que tímidos flocos que a custo atapetaram o chão de branco. Mas já vi nevar em Paris, cidade que mais vezes visitei e da qual sinto ganas permanentes, sem também perceber de facto porquê.
De onde fluem estes ímpetos? De anteriores encarnações? Seria estrondoso e apaziguador acreditar em tal.
Caramba, que sede de viajar!

(foto Julien Roumagnac)

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Fêmeas



Deambular pela Net traz destas surpresas. Infelizmente as fotos não estavam identificadas.

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Nick Veasey

Uma outra forma de olhar o real. Em pleno século XXI é difícil inovar. Tão somente por isso, é de tirar o chapéu ao seu autor. E esteticamente também resulta, na minha óptica.


Tal pai, tal filha. Similares na estrutura interna, distintos no carácter. É tudo uma questão de coluna vertebral.

Todos diferentes, todos iguais. Tenda de campismo colectiva. Que incómoda promiscuidade... Emigrem vizinhos!

Mau grado o momento, que nunca nos falte o glamour.

Outra visão dos transportes públicos. Bem mais lúdica e menos odorífera. Que utopia!

Esticaram o dedo errado. Que bem comportados! São, por certo, ossos portugueses.

Ruído, ferrugem e mais do mesmo


Disse textualmente, e eu atrevi-me a pontuar, Manuela Ferreira Leite: "Eu não acredito em reformas, (aqui é um parênteses, nitidamente) quando se está em democracia, quando não se está em democracia, é outra conversa: eu digo como é que é e faz-se! E até não sei se a certa altura é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia, bom!... Agora, em democracia, efectivamente, (retomada da ideia inicial) não se pode hostilizar uma classe social, ou uma classe profissional, melhor dizendo, para de seguida ter toda... ter a opinião pública contra essa classe profissional e então depois entrar a reformar, porque nessa altura estão eles todos contra."
É óbvio que a sintaxe não é o forte da Dra. Ferreira Leite. Daí até à palhaçada que se instaurou hoje na comunicação social e no teatro político, vai uma distância abissal! Penso que se trata, para não variar, de meras manobras de diversão para distrair a atenção do que é fulcral nesta mensagem, a saber: a prepotência, o autismo e a mão de ferro com que José Sócrates pretende desgovernar este país; os novos significados que contraiu a palavra negociação em Portugal, que agora significa, após o desacordo ortográfico em versão revista e piorada por Maria de Lurdes Rodrigues, "eu negoceio impondo, tu obedeces e não bufas, eles imitam-te abanando o rabo". Ou será que estes vetustos indivíduos, que tanto se excitaram com esta mensagem, têm problemas de compreensão da língua materna decorrentes da leccionação ineficaz de docentes do atrasado, profissionais que não eram ilegalmente avaliados pelos seus pares, ou seja, por indivíduos que são parte integrante e interessada de todo o processo? A propósito desta questão, e para os cépticos que continuam a achar que a ministra tem razão e que este modelo deve avançar, aqui vai a respectiva informação legal retirada do Código do Procedimento Administrativo, sendo que esta é apenas uma das múltiplas pontas do icebergue:

SECÇÃO IV
Das garantias de imparcialidade

Artigo 44º
Casos de impedimento

Nenhum titular de órgão ou agente da Administração Pública pode intervir em procedimento administrativo ou em acto ou contrato de direito público ou privado da Administração Pública nos seguintes casos:
a) Quando nele tenha interesse, por si, como representante ou como gestor de negócios de outra pessoa; (...)

Ora o avaliador, em quem foram delegadas competências, tem em mãos um caso de impedimento, uma vez que, sendo candidato às mesmas quotas, tem interesse directo no acto.
Ainda assim, e voltando atrás, é pena que a Dra. Ferreira Leite, cuja passagem pelo Ensino e pelas Finanças também foi pautada por um enorme espírito anti-democrático, não use o seu muito característico despotismo para arranhar o PS e fazer uma oposição condigna e construtiva, coisa que até agora não vimos minimamente. Ou a senhora está a esmorecer com a idade ou também só canta de galo quando está no poleiro. Assim também eu!!!
A propósito do estado da nação, aqui fica a visão dos espanhóis sobre esta lusa pátria que tantas vezes os correu à bordoada, naqueles tempos ancestrais em que os tugas não se borravam de medo. Atenção às almas mais sensíveis, pois a mim esfarrapou-me bastante o ego. É longo, mas vale a pena ler com atenção.

DESARROLLO-PORTUGAL: Lejos de Europa, Mario de Queiroz , LISBOA, 21 sep

(IPS) - Indicadores económicos y sociales periódicamente divulgados por la Unión Europea (UE) colocan a Portugal en niveles de pobreza e injusticia social inadmisibles para un país que integra desde 1986 el 'club de los ricos' del continente. Pero el golpe de gracia lo dio la evaluación de la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos (OCDE): en los próximos años Portugal se distanciará aún más de los países avanzados.
La productividad más baja de la UE, la escasa innovación y vitalidad del sector empresarial, educación y formación profesional deficientes, mal uso de fondos públicos, con gastos excesivos y resultados magros son los datos señalados por el informe anual sobre Portugal de la OCDE, que reúne a 30 países industriales. A diferencia de España, Grecia e Irlanda (que hicieron también parte del 'grupo de los pobres' de la UE), Portugal no supo aprovechar para su desarrollo los cuantiosos fondos comunitarios que fluyeron sin cesar desde Bruselas durante casi dos décadas, coinciden analistas políticos y económicos. En 1986, Madrid y Lisboa ingresaron a la entonces Comunidad Económica Europea con índices similares de desarrollo relativo, y sólo una década atrás, Portugal ocupaba un lugar superior al de Grecia e Irlanda en el ranking de la UE. Pero en 2001, fue cómodamente superado por esos dos países, mientras España ya se ubica a poca distancia del promedio del bloque.
'La convergencia de la economía portuguesa con las más avanzadas de la OCE pareció detenerse en los últimos años, dejando una brecha significativa en los ingresos por persona', afirma la organización. En el sector privado, 'los bienes de capital no siempre se utilizan o se ubican con eficacia y las nuevas tecnologías no son rápidamente adoptadas', afirma la OCDE. 'La fuerza laboral portuguesa cuenta con menos educación formal que los trabajadores de otros países de la UE, inclusive los de los nuevos miembros de Europa central y oriental', señala el documento. Todos los análisis sobre las cifras invertidas coinciden en que el problema central no está en los montos, sino en los métodos para distribuirlos. Portugal gasta más que la gran mayoría de los países de la UE en remuneración de empleados públicos respecto de su producto interno bruto, pero no logra mejorar significativamente la calidad y eficiencia de los servicios.
Con más profesores por cantidad de alumnos que la mayor parte de los miembros de la OCDE, tampoco consigue dar una educación y formación profesional competitivas con el resto de los países industrializados. En los últimos 18 años, Portugal fue el país que recibió más beneficios por habitante en asistencia comunitaria. Sin embargo, tras nueve años de acercarse a los niveles de la UE, en 1995 comenzó a caer y las perspectivas hoy indican mayor distancia.
¿Dónde fueron a parar los fondos comunitarios?, es la pregunta insistente en debates televisados y en columnas de opinión de los principales periódicos del país. La respuesta más frecuente es que el dinero engordó la billetera de quienes ya tenían más. Los números indican que Portugal es el país de la UE con mayor desigualdad social y con los salarios mínimos y medios más bajos del bloque, al menos hasta el 1 de mayo, cuando éste se amplió de 15 a 25 naciones. También es el país del bloque en el que los administradores de empresas públicas tienen los sueldos más altos. El argumento más frecuente de los ejecutivos indica que 'el mercado decide los salarios'. Consultado por IPS, el ex ministro de Obras Públicas (1995-2002) y actual diputado socialista João Cravinho desmintió esta teoría.
'Son los propios administradores quienes fijan sus salarios, cargando las culpas al mercado', dijo. En las empresas privadas con participación estatal o en las estatales con accionistas minoritarios privados, 'los ejecutivos fijan sus sueldos astronómicos (algunos llegan a los 90.000 dólares mensuales, incluyendo bonos y regalías) con la complicidad de los accionistas de referencia', explicó Cravinho. Estos mismos grandes accionistas, 'son a la vez altos ejecutivos, y todo este sistema, en el fondo, es en desmedro del pequeño accionista, que ve como una gruesa tajada de los lucros va a parar a cuentas bancarias de los directivos', lamentó el ex ministro. La crisis económica que estancó el crecimiento portugués en los últimos dos años 'está siendo pagada por las clases menos favorecidas', dijo.
Esta situación de desigualdad aflora cada día con los ejemplos más variados. El último es el de la crisis del sector automotriz. Los comerciantes se quejan de una caída de casi 20 por ciento en las ventas de automóviles de baja cilindrada, con precios de entre 15.000 y 20.000 dólares. Pero los representantes de marcas de lujo como Ferrari, Porsche, Lamborghini, Maserati y Lotus (vehículos que valen más de 200.000 dólares), lamentan no dar abasto a todos los pedidos, ante un aumento de 36 por ciento en la demanda. Estudios sobre la tradicional industria textil lusa, que fue una de las más modernas y de más calidad del mundo, demuestran su estancamiento, pues sus empresarios no realizaron los necesarios ajustes para actualizarla.
Pero la zona norte donde se concentra el sector textil, tiene más autos Ferrari por metro cuadrado que Italia. Un ejecutivo español de la informática, Javier Felipe, dijo a IPS que según su experiencia con empresarios portugueses, éstos 'están más interesados en la imagen que proyectan que en el resultado de su trabajo'. Para muchos 'es más importante el automóvil que conducen, el tipo de tarjeta de crédito que pueden lucir al pagar una cuenta o el modelo del teléfono celular, que la eficiencia de su gestión', dijo Felipe, aclarando que hay excepciones. 'Todo esto va modelando una mentalidad que, a fin de cuentas, afecta al desarrollo de un país', opinó.
La evasión fiscal impune es otro aspecto que ha castrado inversiones del sector público con potenciales efectos positivos en la superación de la crisis económica y el desempleo, que este año llegó a 7,3 por ciento de la población económicamente activa. Los únicos contribuyentes a cabalidad de las arcas del Estado son los trabajadores contratados, que descuentan en la fuente laboral. En los últimos dos años, el gobierno decidió cargar la mano fiscal sobre esas cabezas, manteniendo situaciones 'obscenas' y 'escandalosas', según el economista y comentarista de televisión Antonio Pérez Metello. 'En lugar de anunciar progresos en la recuperación de los impuestos de aquellos que continúan riéndose en la cara del fisco, el gobierno (conservador) decide sacar una tajada aun mayor de esos que ya pagan lo que es debido, y deja incólume la nebulosa de los fugitivos fiscales, sin coherencia ideológica, sin visión de futuro', criticó Metello.
La prueba está explicada en una columna de opinión de José Vitor Malheiros, aparecida este martes en el diario Público de Lisboa, que fustiga la falta de honestidad en la declaración de impuestos de los llamados profesionales liberales. Según esos documentos entregados al fisco, médicos y dentistas declararon ingresos anuales promedio de 17.680 euros (21.750 dólares), los abogados de 10.864 (13.365 dólares), los arquitectos de 9.277 (11.410 dólares) y los ingenieros de 8.382 (10.310 dólares). Estos números indican que por cada seis euros que pagan al fisco, 'le roban nueve a la comunidad', pues estos profesionales no dependientes deberían contribuir con 15 por ciento del total del impuesto al ingreso por trabajo singular y sólo tributan seis por ciento, dijo Malheiros. Con la devolución de impuestos al cerrar un ejercicio fiscal, éstos 'roban más de lo que pagan, como si un carnicero nos vendiese 400 gramos de bife y nos hiciese pagar un kilogramo, y existen 180.000 de estos profesionales liberales que, en promedio, nos roban 600 gramos por kilo', comentó con sarcasmo.
Si un país 'permite que un profesional liberal con dos casas y dos automóviles de lujo declare ingresos de 600 euros (738 dólares) por mes, año tras año, sin ser cuestionado en lo más mínimo por el fisco, y encima recibe un subsidio del Estado para ayudar a pagar el colegio privado de sus hijos, significa que el sistema no tiene ninguna moralidad', sentenció.

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Gavetices


Há dias em que sinto também este ímpeto. Enfiar-me numa gaveta e permanecer bem quieta, enroladinha e em silêncio. Geralmente ocorre-me quando trabalhar é mesmo uma tortura, ou ver caras pouco amistosas um suplício, ou quando sei que vou ter que fingir interesse por conversas absurdas e ridículas, ou simplesmente quando a ideia de ter que interagir com outros seres humanos é demasiado penosa.
Há quem deseje os lençóis de linho, como o Sá-Carneiro, ou enfiar a cabeça num balde, como o Pessoa. A mim apetece-me simplesmente engavetar-me, visto que já passei a idade do armário. E ficar bem arrumadinha, ali esquecida, até que as nuvens negras dêem lugar a um sol luminoso, quente e doce.

(foto Alison Brady)

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Está na hora!

"Está na hora, está na hora, da Ministra ir embora!" Irra! Adeusinho e até nunca mais!
Eu também lá estive, na maior manifestação de sempre de uma classe profissional em terras lusas. Nunca me tinha encontrado no meio de tão genuíno mar de gente, apesar de gostar futebol e de ser assídua em mega-concertos musicais. Porém, em nenhum momento me senti claustrofobizada ou amedrontada. A educação da minha classe profissional honra o seu título de professores, indivíduos que demonstram o que é o civismo de forma exemplar. Pessoas desiludidas perante o autismo e a prepotência de uma criatura inqualificável, para quem expressões como orgulho, brio ou vergonha no trombilo nada significam. Nunca assisti neste país a um tal enxovalhamento de um membro governamental, nunca vi ninguém mentir com tal descaramento, nunca conheci alguém que perante uma tão incontornável manifestação de desprezo não percebesse que era tempo de virar as costas e de esperar pelo anonimato apaziguador. Que incrível masoquista, esta Sra. Lurdes! Não sou do tempo do Salazar, mas creio que esta Salazarenta vai ficar para a História como uma nódoa talvez ainda mais negra, odiosa e odiada.
Por isso a chuva de ovos com que foi hoje alvejada em Fafe encheu-me de alegria! Bravo aos alunos! Parabéns ao Norte! Lamento não ser ainda estudante, pois teria lá estado era com estrume, revivendo os tempos áureos da vida académica em que, no cortejo de estudantes lisboetas, os tipos de agronomia nos presenteavam com excrementos de diferentes bicharocos. Coisa saudável, muito ecológica e biodegradável, como está em voga. A César o que é de César!
A minha paciência esgotou-se! E felizmente não estou só. Os representantes dos encarregados de educação com quem me cruzei por estes dias nas reuniões intercalares estão ainda mais indignados. Perceberam finalmente a falácia de um sistema que, em troca de resultados aceitáveis e de estatísticas que salvem a honra do convento, falseia a realidade e os presenteia com filhos semi-analfabetos em pleno ensino secundário. Perceberam por fim que esses filhos estão condenados ao insucesso pois não têm pernas para andar, a menos que o 12º ano passe a ser a escolaridade obrigatória e cheguem então alunos semi-analfabetos às universidades portuguesas. Resta saber que factura pagará o país por tais desmandos num futuro próximo...
Chega! Morra a Lurdes, morra, pim! (grande Almada Negreiros!) Está na hora, está na hora, da Ministra ir embora! Vai Sra. Lurdes! E leva o Fócrates contigo!

(foto de Martin Andreasen)

A Ministra antes da Manif

Se lermos as legendas com atenção, constatamos que são ditas grandes verdades de forma satírica e bem humorada. E nunca o humor foi tão necessário para encarar este clima de insanidade que se instalou ultimamente no nosso dia-a-dia.
Percebemos também que todos os ditadores têm algo em comum: são odiosos e feios!

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

A luta continua!




Nada como uma boa movimentação para reanimar os ânimos! O boicote à avaliação da carreira docente começou e promete avançar em força. Menos mal. Entretanto seria maravilhoso deitar a Sra. Lurdes em qualquer destes belos sofás. Porém as cobras ou lhe chamavam mana ou morriam envenenadas ao picá-la. O fogo por certo que se apagaria com tamanha frigidez. Os ovos ficavam automaticamente chocos, o que seria imoral dada a fome no mundo. E os cactos murchavam, ficando inofensivos como rosas secas.
Não foram só as férias que me desabituaram de ser um Bicho Bravo. A verdade é que trabalho tanto que o pouco tempo que me sobra é canalizado para outras actividades. Só quem está no ensino pode genuinamente entender aquilo de que falo. Estamos afogados em burrocracia, submersos em testes, sufocados por centenas de alunos cuja formação está nas nossas mãos (eu disse centenas! Tenho cento e quarenta e oito alunos e tento ensinar trinta pessoas completamente díspares e de várias nacionalidades em simultâneo). E a cereja no topo do bolo é que somos agora vigiados por criaturas cinzentas, pidescas e medíocres que decidiram de repente ser lacaios da ministra (visto que até então nunca tinham sido nada!) e que vão parindo reuniões sistemáticas a ritmo alucinante e exigindo toneladas de documentos que se enfiam em dossiers e ficam a ganhar mofo até serem deitados ao lixo, visto que de lixo não passam. E todos os dias chegam novas directrizes mais castradoras e absurdas, desfasadas da realidade, anedóticas mesmo. Já passámos por diferentes fases: a da indignação, a da acomodação, a da revolta, a do hilaridade... Creio que finalmente chegou a da luta. Quero acreditar mesmo, senão não encontro forças para levar a cruz ao calvário.
Mas as manobras de diversão continuam. A máquina não pára! Agora é a distribuição jorrante de Cagalhães e a interiorização de que caminhamos para o desenvolvimento tecnológico. Quem acredita ainda? Estou em crer que só os mais distraídos ou desinformados, o que é bastante frequente ainda em Portugal. Pois desenganem-se os que pensam que a qualidade do ensino melhorou ou que os professores são um bando de preguiçosos que se borram de medo de ser avaliados. Como consta já neste blogue, eu sou a favor da avaliação. Contudo, jamais nestes moldes persecutórios, arbitrários e ilegais. Nenhuma outra classe é avaliada desta forma e, se tudo correr pelo melhor e as pessoas continuarem a prezar a verticalidade que nos descolou as patas do chão e nos prendou com mãos, a Sra. Lurdes não vai levar a sua avante. A diarreia mental que se apossou do Ministério da Educação, e que nos tem salpicado a todos com maior ou menor intensidade, vai ficar a arroz e bananinhas para ver se estanca. Múltiplas têm sido as escolas a aderir ao boicote e estou em crer que, desta feita, o movimento não vai parar.
Se alguém se julgar no direito de contestar estas palavras faça-me apenas um favor: informe-se, documente-se, fale com propriedade. Para exibições de ignorância alarve já nos chega o beberrão do Sousa Tavares!
Até há relativamente pouco tempo tinha muito prazer e orgulho na minha profissão. Nunca me queixei de nada nem de ninguém. Consegui sempre investir na minha formação pessoal (é preciso receber para poder dar), dinamizar múltiplas actividades extra-curriculares ao longo do ano lectivo e exibir um real semblante de satisfação. Hoje sou alguém que trabalha por obrigação, que anseia pelo fim-de-semana e pelas férias e que apenas nada alterou com os seus alunos, pois trabalhar com seres humanos tem esta contrariedade: não podemos mandar tudo às urtigas. Senão a Sra. Lurdes ia enfiar as suas demenciais directrizes no buraco mais estreito que tivesse no corpo e arranjar outra vítima sobre quem descarregar as suas, por certo, cavalares frustrações.

Quinta-feira, Junho 12, 2008


A solidão escorria dos olhos do cão. Era miudinha, quase imperceptível, como a primeira chuva de Outono que nos embala no aroma da terra. E feita de inúmeros retalhos cosidos pela mão do tempo, alguns coloridos e limpos, outros esfarrapados e negros.
Em tempos soubera sacudi-la como água que lhe ensopasse o pêlo. Ladrava para intimidá-la, mordia para que fugisse ou escavava o solo para a enterrar.
Agora deixava que esta o possuísse de mansinho e se transformasse numa árvore lilás de ramos finos, muito bela na sua tristeza.
O cão aprendera a entregar-se à sua sorte, ao ritmo improvável das coisas que lhe aconteciam por alguma razão, à melancolia de querer desfiar as estrelas e não ter por companhia senão a própria sombra.
Apesar de não estar sozinho, o cão estava tão só que a solidão transbordava e escorria dos seus olhos, formando pequenos mares de prata que lhe devolviam a sua imagem.

(foto Gavin Mullan)


Sábado, Junho 07, 2008

Euro 2008


Não gosto de dirigentes políticos que querem distrair o povo das suas reais preocupações e maleitas e que para tal recorrem de forma abusiva e manipuladora ao futebol. Não gosto do endeusamento de comuns mortais que chutam com mestria um esférico, alguns tão comuns que até aflige! Enoja-me o aproveitamento da comunicação social, a quem só falta revelar a cor das cuecas dos jogadores após nos presentear com a marca de champô do Miguel Veloso ou as intimidades da diva do Ronaldo. Escandalizam-me as quantias pornográficas que envolvem o mundo da bola quando metade do mundo sofre privações desumanas. Detesto as bebedeiras violentas justificadas com derrotas ou vitórias e o estado de fissuração absoluta que se instala no povo no decurso do Euro ou do Mundial.
No entanto, adoro futebol! A adrenalina que nos corre nas veias, a explosão de alegria provocada pelos golos, as tácticas e as mudanças de táctica, os rasgos individuais surpreendentes, o ritual de ver o jogo com amigos, cervejolas e petiscos, a euforia apaziguadora da vitória.
Portugal estreia-se hoje. Boa sorte e muita pica para a Selecção das Quinas! Dêem-nos alegrias e bom futebol!

Quarta-feira, Junho 04, 2008

Conversa da treta


- Vê lá se gostas do meu soutien? - atira a loura cinquentona para a trintinha meio hippie, pequenina e branquela, algo infantil. Usualmente seria afastada alguma roupagem para que se pudesse espiar o dito. Mas não, ela é mais do estilo Zás, tudo ao léu!, e lá empina o decote imenso da blusa de lycra transparente para que assomem duas bolinhas rendadas, ironicamente tímidas por comparação à dona e às regueifas que lhe escorrem da cintura.
- É mais giro do que o de ontem - avança logo o gorducho dos dentes calcinados com olhar guloso. É novo mas cheira a mofo.
- Não acho - opina a trintona grossa e bem tratada, olhar directo - De qualquer modo todos te gabam a lingerie, não vale a pena perguntares. Nem precisas de esperar que o teu gajo se digne reparar nela.
- Qual gajo, qual quê? - contrapõe a hippileca com ar furibundo e sotaque transmontano - Interessa a alguém o que é que os gajos pensam ou não? Competência e tamanho e não se pensa mais no caso.
- Ei, que mau feitio - arrisca o barrigudito vermelhusco - És uma tipa bué insensível. Até parece que estás a falar de um objecto.
- Digo-te já man, esta é a era das mulheres - entusiasma-se a Miss Yoko Ono - Qualquer dia quem precisa de cotas nas empresas e na política são vocês. Nas faculdades estamos em maioria. E no sexo também. Temos orgasmos múltiplos caraças! E gajos para chatear e coser as meias passo. Gosto é de amantes. A parte boa para nós e a seca para a tipa que o atura. Dou-me mesmo bem. Amantes é que rende! - reafirma com convicção numa fala cheia de sibilantes.
Espanta-me o antiquado da palavra na boca daquela self made woman à século XXI. Entretanto o banhocas engasga-se e fica ainda mais vermelhusco, mas de bico calado. E a trintona emerge do limbo e diz com ar enfadado:
- Pá, fui ontem à feira do livro e queria um autógrafo do Sousa Tavares. Nem imaginam a fila que lá estava. Havia gente com livros trazidos de casa e tudo. Havia até quem tivesse fotografias de quando o tipo era novo para ele autografar. Uma macacada. Já estava farta e perguntei a uma mulher quantos é que tinha. Mostrou-me seis. Bem, passei-me e disse-lhe que tinha de estar na empresa dali a quarenta e cinco minutos e que ela me podia deixar avançar. Sempre era menos uma. E não é que a tipa teve a lata de me dizer que não dava porque tinha de ir ao cabeleireiro? Que porra! É só gente estúpida!
- Estúpida é a nova secretária do patrão. Já viram como é que ela abana o cu? Deve andar numa de escalada na horizontal - funga a loura entre dentes com ar nostálgico, talvez invejando a sorte da outra.
Enfio mais o nariz no meu livro e tento concentrar-me. Não há cu que aguente!
- A mim o que me chateia é a greve dos pescadores pá. Não como carne e agora ando com medo de comer peixe. Só congelado. Há quanto tempo é que os gajos não pescam? - inquire a hippie.
- Este país é tão mau de governar que nem com maioria lá vai. É sempre a mesma treta! - resmunga a loura.
- A política não interessa népia - rosna a hippie.
- Bolas, parti uma unha - diz a trintona.
- Isso não é nada. Estes sapatos novos lixaram-me os pés todos - resmunga o pipudo.
Acabam mesmo é de lixar a minha escassa paciência seus autistas acéfalos, penso. Piro-me daquela carruagem a sonhar com a hora de recolher à toca para recarregar baterias e tentar não estupidificar de vez. Bons tempos em que se falava de livros e cinema e teatro e música e política. Apesar do espírito ecológico e do preço da gasolina, acho que não ando de comboio tão cedo. Irra!

(foto de Pedro Gonçalves)

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Dias difíceis


A Sra. Lurdes, vulgo Ministra, premiou-nos com mais uma pérola! Foi ao Rock in Rio e, quando interpelada sobre a sua presença no local, disse que queria ver o Rui Veloso. Hilariante!
Quanto ao Macário Correia tem-se saído muito bem no que diz respeito à gestão das verbas para combustível. Há bastante tempo que existem polícias a circular de bicicleta em Tavira, o que é salutar para o ambiente e para os olhos femininos pois os rapazes, regra geral, são giraços. Entretanto a Câmara começou hoje a abastecer a sua frota automóvel nas bombas de gasolina espanholas, tendo Macário garantido que com esta medida conseguirá poupar cem mil euros ao ano. "Esta manhã já abastecemos um autocarro numa bomba do outro lado da fronteira", disse este, contabilizando em 120 euros o que a autarquia vai poupar em cada depósito de combustível
de um veículo pesado. Parabéns pelos tomates! Resta saber qual a reacção do nosso Primeiro, principalmente nesta fase penosa em que tenta, segundo nos fez crer, libertar-se do vício do tabaco. E nós, onde é que vamos abastecer-nos? Até porque, pelo que me é dado observar, o boicote à Galp tem sido boicotado pelos próprios interessados que aí se continuam a abastecer. Povo bovino e estúpido que não sabe lutar pelos seus direitos!
Entretanto a minha solidariedade vai para a luta dos pescadores. A sua greve vai manter-se por tempo indeterminado até que o Governo tome "medidas de carácter urgente e imediato que salvaguardem as regras concorrenciais com os congéneres de Espanha, Itália e França". Solicitam a criação de "uma plataforma de entendimento com os governos desses países que possa criar uma ‘task force’ de pressão institucional e política junto da comissão para alterar as suas regras". Enquanto isso, "Cavaco Silva apela à boa vontade dos dois lados" neste diferendo (quem é esta figura decorativa?!). Afinal a pesca não devia ser à partida um dos sectores mais privilegiados e explorados neste país à beira-mar plantado? Ou eu não percebo nada disto ou esta história de se ir dando sistematicamente cabo do pouco que temos está prestes a terminar, pois a agricultura é o que se sabe e a indústria está de rastos. Que nos sobra? Rezar para que nos vendam de uma vez a alguém competente que não nos explore tanto, não nos roube tão descaradamente e nos proporcione melhores condições de vida?
E nem de propósito, lê-se no Público que
"em virtude da intensificação da acção do Tribunal de Contas foi detectada despesa pública irregular nas auditorias realizadas acima de 800 milhões de euros, nos vários níveis da administração - central, regional e local", revela o relatório hoje divulgado. Entre as situações irregulares encontram-se pagamentos não orçamentados, pagamentos com recurso a operações específicas do Tesouro e transferências de municípios para empresas públicas municipais com um instrumento legal "desadequado". Sem comentários!
Algo do que aqui é reportado interessa à maioria dos portugueses? Duvido! A masturbação psicológica com a Selecção Nacional sobrepõe-se a tudo o resto, embalada pelos sons dos festivais de Verão. E ainda não há praia, senão é que as lusas avestruzes só desenterrariam a cabeça da areia no final da época balnear para pensar nas compras de Natal!

(foto Petr Pazour)